Brasil
(Foto: Francisco Silva/ DP)
É embaixo de um pé de cajá, em uma comunidade próxima à Avenida Beira-Rio, no bairro da Madalena, que o estudante Magnus Horlen tem passado parte dos últimos dias com a família. Ele é o menino que contamos a história em dezembro do ano passado, no Diario de Pernambuco.
A história de uma família separada. Com quase um ano de idade, ele foi levado para adoção na Noruega. Após 32 anos de muita busca, o final feliz aconteceu, em plena Semana Santa. Mulher de poucas palavras, mais muita fé, Rosineide Araújo, a mãe biológica, mostrou-se muito feliz pelo reecontro com o filho, que considerava perdido. “Para mim, é como se meu filho tivesse ressuscitado nesta Páscoa!”, disse, ao lado de Magnus, que não fala bem o português. “Fiquei feliz, né? Fiquei contente de ter encontrado”, celebrou Rosineide.
A mãe não fala inglês, menos ainda norueguês. Eles, entretanto, têm se esforçado, e a comunicação consegue fluir. Magnus contou, em inglês, o que sentiu quando chegou ao Brasil e viu Rosineide pela primeira vez. “Foi no aeroporto, e eu não planejava encontrá-la de imediato. Eu iria encontrar minha prima e sua família. Mas quando eu estava chegando ao Recife, ainda no avião, mandei uma mensagem para minha prima perguntando quem viria, ela me disse que seria uma ‘surpresa’”, comentou.
Vindo de um país bastante frio, o estudante de pedagogia disse que ficou chocado quando saiu do avião e encontrou um grupo grande, incluindo a mãe biológica. “A recepção parecia um filme.As pessoas começaram a gritar, e eu me senti como uma estrela de cinema [risos]. Não sei, foi muito estranho”, explicou.
Magnus comemorou seu aniversário de 32 anos com a família que acabara de conhecer. Marinalva, a tia que iria adotá-lo e que ainda mora em São Paulo, também veio, com o marido, Hélio, para conhecer o sobrinho. Magnus não desgruda de Felipe, seu irmão mais novo e, mesmo sem nenhum jeito para a coisa, até arrisca umas partidas de futebol com ele.
Com uma família bem grande, sempre tem um primo ou parente chegando para conhecê-lo. Sempre uma desculpa para passarem um tempão conversando na porta da casa da mãe. Com a certidão de nascimento e carteira de identidade brasileiras, o menino desaparecido confirma que sente parte do país. “Quando eu fui adotado, morar na Noruega, eu cresci em um lugar muito pequeno. E sempre me senti deslocado. E essa cidade [o Recife] meio que me dá tudo que eu quero, sabe? É a vida na cidade, a praia, os barulhos, o silêncio, tudo. E as pessoas são tão calorosas e acolhedoras”, festejou.
Quando perguntado se acha que o mesmo Magnus que chegou ao Brasil vai voltar para a Noruega, ele não titubeou: “Não, definitivamente não”.
DRAMA
Pouco antes de completar um ano, em março de 1992, a criança, chamada de Hélio, foi adotada por uma família norueguesa, onde passou a ser chamado de Magnus. A história, porém, não deveria ter sido assim: quando engravidou, Rosineide percebeu que não poderia cuidar da criança, por isso ofereceu-a à irmã, que morava em são Paulo, para que ela criasse o menino.
Ainda grávida, a mulher se mudou para o Sudeste, mas chegando lá, viu que a história proposta para a adoção não tinha saído como esperado. A irmã chama-se Marinalva
e o marido dela, Hélio. Era esse o casal que iria adotar a criança. “Nós soubemos que minha cunhada estava grávida, e o rapaz com quem ela estava namorando tinha sumido. E o pessoal ficouapreensivo em dizer assim, como é que nós vamos fazer? Como a Marinalva já não pode ter filho, e eu já estava com idade avançada, nós ligamos para lá, e ela resolveu dar esse filho pra nós”, disse o fotógrafo Hélio Araújo.
Eles contam ainda que ao tentar regularizar a situação da adoção, o pesadelo começou. O juiz que avaliou o caso retirou a guarda da mãe e também não deu o direito à tia. “Fomos resolver uma situação, fomos até a autoridade do fórum, porque sabíamos que uma pessoa queria nos ajudar, mas não fizeram isso”, contou Marinalva.
“Foi triste, viu? Ele foi embora. Saiu dos meus braços, foi levado. Chorei com Marinalva e Hélio lá. O juiz disse ‘vou pegar ele. Nem você nem ela terão direito de ver o menino’, eles nos contou”, disse a mãe biológica. Marinalva, que é agente comunitária de saúde, completou “Não sabíamos nem para onde ele tinha sido levado. Não sabíamos nem se estava vivo ou morto.”
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