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Notícia de Brasil

PANDEMIA

Os jabutis na árvore e os órfãos da Covid-19

Publicado em: 09/06/2021 21:52

 (Foto: Pexels)
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Dois artigos publicados lado a lado no Caderno Economia & Negócios do Estadão na terça, 8 de junho, revelam o triste momento brasileiro e, pior, a difícil perspectiva futura de nossa sociedade. Claro que o sentimento desta avaliação tem muito a ver com esta epidemia interminável e absurdamente mortal que vivemos no Brasil. Mas este sentimento tem motivações concretas, como os revelados nos textos destes dois economistas. Estão lá nos altos das páginas B4 e B5 do jornal impresso (vida longa a eles). O primeiro artigo é de Ana Carla Abrão, intitulado Jabuti não sobe em árvore, como aliás dizia um velho político brasileiro. Na página seguinte está o artigo As vítimas invisíveis, de Pedro Fernando Nery. Ana trata da privatização da Eletrobrás, Nery dos órfãos da Covid-19. Temas aparentemente tão diversos, mas que devem se encontrar da pior maneira possível.

Nery lembra que a epidemia no Brasil está matando cada vez mais jovens. “Assim, 2021 pode entrar na nossa história pela quantidade de novos órfãos no Brasil”, escreve. Pior. Muitos vão estar sem qualquer proteção efetiva de um programa do Estado, abandonados à própria sorte, a maioria justamente na fase da vida em que mais poderiam se desenvolver, a primeira infância. Vale destacar um trecho inteiro do artigo de Nery. “O potencial do desenvolvimento humano de várias crianças brasileiras já está ameaçado pela precariedade da educação e queda da renda familiar na pandemia. Para as órfãs, porém, a vulnerabilidade à pobreza pode continuar pelos próximos anos – especialmente quando não há pensão, situação que paradoxalmente ocorre justamente entre os mais pobres”.

Como lembra Nery, não há no Brasil um benefício infantil robusto, como existe em muitos países desenvolvidos. Uma das primeiras medidas do presidente Joe Biden ao assumir este ano a presidência dos Estados Unidos foi ampliar o programa de proteção infantil, que vinha sendo diminuído nos últimos anos. Nery relata que há algumas proposições no Congresso que tratam de alguma forma do acolhimento destes órfãos.

Congresso, por onde está circulando a Medida Provisória que trata da privatização da Eletrobrás. Ela já foi aprovada na Câmara dos Deputados. E o que ela tem a ver com os órfãos da Covid? Tudo. Como diz Ana em seu artigo, os congressistas colocaram um monte de jabutis na MP da Eletrobrás. Jabuti é o termo que se dá a normas normalmente escusas colocadas num projeto de lei, que de outra forma não seriam aprovadas. Normas quase sempre contrárias ao interesse público, por isso a manobra. “Na luta entre o coletivo e o individual, o último ganhou de forma vigorosa na votação da MP 1031 (da privatização) na Câmara dos Deputados”, afirma Ana.

No artigo para o Estadão, Ana enumera uma série de interesses setoriais que serão atendidos, ainda que não sejam o melhor para o futuro do Brasil. “O loteamento de benesses em troca da privatização da Eletrobrás é um jogo de soma negativa para o cidadão brasileiro”. É neste ponto que os dois temas tratados pelos economistas se encontram. A privatização da Eletrobrás deveria ser algo positivo para a sociedade. Melhor administrada, poderia gerar muito mais dinheiro para projetos e programas que melhorariam a condição de vida dos brasileiros. Principalmente dos mais necessitados. E ninguém mais necessitado no Brasil atual do que os órfãos da Covid, infelizmente ignorados pelo Brasil estatal, eleitos ou nomeados. Mais preocupados em atender seus interesses, de familiares, apadrinhados e financiadores de suas campanhas eleitorais. E assim, o dinheiro que a sociedade produz vai continuar indo para os beneficiários do Estado e sempre faltará para quem verdadeiramente precisa. 

Mas vale terminar com as frases finais dos dois articulistas. Ana: “Jabuti não sobe em árvore, cada um teve um padrinho que o colocou lá. Mas o Senado bem que poderia derrubar alguns deles em nome do Brasil. A conferir”.  Nery: “O Brasil precisa discutir logo como abraçar as crianças pobres para quem a epidemia nunca vai acabar”. Que ambos sejam ouvidos.
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