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CPI

CPI da Covid: apesar do desgaste, Bolsonaro mantém discurso contra distanciamento social

Publicado em: 23/05/2021 08:31

 (Evaristo Sá/AFP)
Evaristo Sá/AFP
O desgaste político provocado pela CPI da Covid-19 levanta dúvidas sobre a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro mudar o discurso negacionista. Sofrendo com fatos negativos quase diários, o presidente acabou se tornando, ao menos em parte, vítima do que diz, já que suas falas negacionistas em relação à pandemia do novo coronavírus também alimentam a oposição no colegiado. Para parlamentares e cientistas políticos, porém, o governo deverá assumir um discurso dúbio, em que integrantes do primeiro escalão modularão de acordo com a necessidade para preservar o chefe do Executivo que, por sua vez, seguirá na mesma toada para manter os eleitores mais radicais.

Mesmo os parlamentares da base do governo admitem que não há possibilidade de Jair Bolsonaro mudar o tom. Líder do DEM no Senado e principal nome da tropa de choque do governo na CPI, o senador Marcos Rogério defende que o presidente não precisa mudar de tom, e entende que, apesar das falas de Bolsonaro, o governo faz o que é necessário para o combate à pandemia. “O que tenho visto é o governo do presidente Bolsonaro agindo no sentido de dotar o país de todas as condições para o enfrentamento. Reforçou o orçamento de estados e municípios, contratou vacinas dos principais laboratórios com imunizantes disponíveis, tem trabalhado no sentido de garantir suporte”, argumentou.

Questionado se Bolsonaro não dificulta o trabalho da base parlamentar, por exemplo, ao defender o uso da cloroquina, o senador afirmou que esse “não é o ponto central”. “O medicamento foi usado pelo Brasil e ainda é, pois tem muitos médicos que continuam receitando não só a hidroxicloroquina, cloroquina, como a azitromicina, ivermectina e tantos outros. Não temos um medicamento próprio com indicação na bula. Quando o presidente fez a defesa, outros países faziam também. Outros países ainda usam a cloroquina. Então, o foco tem que ser enfrentar o vírus e vencer. Com a vacina e os protocolos de segurança”, justificou.

Já o líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões (AL), se diz contrário ao discurso negacionista de Bolsonaro. Ele também afirma que isso não vai mudar, mas que o governo caminha para conciliar duas posições contraditórias. “Na verdade, a ideia de mudar de discurso é complexa. E o que o presidente tem mostrado é que mantém o discurso e o comportamento. A exemplo do que tem feito em manifestações. Agora, não julgo que o ministro Marcelo Queiroga esteja indo no mesmo caminho. Ele tem ouvido a ciência. Agora, do presidente, eu imagino que ele vai continuar”, avaliou.

Duas caras
Para o analista político do portal Inteligência Política, Melillo Dinis, Bolsonaro não mudará o discurso, pois mira a eleição, e isso significaria abandonar a base de eleitores mais fiel. Mas terá que conciliar o que diz e o modo com que se apresenta com outras estratégias para conseguir se apresentar como um candidato viável nas próximas eleições. “O que muda é a estratégia. O discurso continua o mesmo no campo do folclórico agressivo. A estratégia muda para que se atinja o objetivo, que é a eleição. A primeira delas é a tentativa, nas próximas semanas, de definir um partido político. Segundo é a luta para que tenha influência nas eleições do Parlamento, com uma bancada e um partido para chamar de seus”, destacou.

O mestre em sociologia política e doutor em direito Geraldo Tadeu Monteiro, por sua vez, destaca que a identidade de Bolsonaro se apresenta nos discursos. “É o que ele acredita. Ele segue sendo negacionista, chamando de idiota as pessoas que ficam em casa. Chama de atentado à liberdade. Na essência, ele segue fazendo o mesmo discurso. Mas, diante das circunstâncias, o governo pode tentar modular o discurso estrategicamente. Instruir os depoentes da CPI para negarem simplesmente. Até agora, o discurso (de outros membros do governo) foi amenizado para evitar que se transformasse em mais um ingrediente contra Bolsonaro. Mas, na essência, eles são a mesma coisa. Queiroga tem um pouco mais de liberdade, mas o presidente segue sem máscara e provocando aglomeração”, lembrou.

“O Pazuello saiu? É um fusível queimado. O Ernesto também. A situação fica insustentável e para não repercutir sobre o presidente, você tira essas pessoas. Desde o início, as pessoas perguntam se ele vai mudar. Mas ele é o protagonista de um movimento chamado bolsonarismo, mobilizado por ideias básicas. Ele não pode chegar e dizer para as pessoas ficarem em casa. Ele não tem como recuar. Ele, estrategicamente, evita falar certas coisas, mas, em termos pragmáticos, o governo Bolsonaro, considerando ministros, devem ter considerado modular o discurso, não alimentar polêmica dentro da CPI. Vai ser uma coisa duplamente negacionista. É mais uma estratégia”, disse Monteiro.

 
Primeiro relatório da investigação

A CPI da Covid deve apresentar, nas próximas semanas, a primeira versão do relatório que trará as principais conclusões do colegiado. O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator do grupo, a quem cabe redigir o documento, afirmou que já existem provas da responsabilidade do governo federal em episódios que considera falhas no enfrentamento da pandemia no país, como no atraso para aquisição de vacinas e na crise de falta de oxigênio no Amazonas.

Desde a instalação, em 29 de abril, a CPI já ouviu sete depoimentos, incluindo todos os quatro titulares do Ministério da Saúde desde que a pandemia foi decretada, em março passado. A comissão também já havia recebido até ontem mais de 300 documentos com informações de órgãos como o Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União, governos estaduais, além do próprio governo federal.

“Tem coisa comprovada, de que o governo não queria comprar vacina nenhuma, que defendia imunização de rebanho, por isso os estímulos à aglomeração e ao não uso de máscara. Tratativas nesta direção (de atrasar compra de vacinas) com a Pfizer, com a CoronaVac, com a Índia, isso tudo está provado”, afirmou Renan.

A dúvida de Renan é se o relatório que ele vai redigir sobre os primeiros 30 dias de trabalho será um resumo ou também incluirá suas conclusões. O relator disse que vai conversar na quarta-feira com os demais integrantes do colegiado para decidir qual será o formato do texto. A partir deste primeiro documento, o próximo passo do grupo será tentar quantificar quantas mortes poderiam ser evitadas e quantas foram causadas pelas ações, ou a falta delas, do presidente Jair Bolsonaro. “Vamos ouvir a academia, a ciência e receber os estudos das mortes evitáveis”, afirmou o emedebista.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), defende um relatório apenas de resumo. A estratégia de antecipar algumas conclusões da CPI desagrada também ao senador Humberto Costa (PE), representante do PT na comissão. “Fazer uma coisa antes de terminar a investigação vai abrir uma polêmica terrível antes de ter todos os dados, tudo efetivamente. No meio do relatório, se tiver qualquer imprecisão, esse relatório vai ser objeto de verdadeiro espancamento”, argumentou Costa.

Para o senador Rogério Carvalho (PT-SE), porém, os depoimentos até agora da CPI apontam para o que chama de uma série de “crimes sanitários” praticados por autoridades que deveriam conter a pandemia no País. Para Carvalho, o procurador-geral da República, Augusto Aras, terá de agir após o relatório final. “Com uma investigação bem feita, um relatório sem vícios, e isso encaminhado à PGR, não tenho dúvida de que o procurador vai agir”, afirmou o petista, que é suplente na comissão.

Pacheco vacinado

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 neste sábado, em Belo Horizonte. O senador disse no Twitter que é diabético, por isso foi incluído no grupo prioritário com comorbidades.




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