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Naja como a que picou jovem no DF é vendida na internet por até R$ 7 mil

Publicado em: 12/07/2020 10:55

 (Foto: Ivan Mattos/ Divulgação)
Foto: Ivan Mattos/ Divulgação
Brasília tem acompanhado uma história que, a princípio, parecia um assustador acidente doméstico, mas mostrou-se algo mais assombroso. Na última terça-feira, Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos, foi picado por uma cobra naja e entrou em coma. Mas, além da equipe médica que agiu para salvar a vida do rapaz, o episódio mobilizou também a Polícia Civil do Distrito Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que precisaram entender como a serpente, de origem asiática, havia chegado à casa do estudante de medicina veterinária.

A busca pela resposta revelou dezenas de animais mantidos em criadouros clandestinos, incluindo cobras de várias espécies, lagartos, enguias e até tubarões. Um novelo cujo desenrolar parece levar a um esquema de tráfico de animais silvestres na capital do país.

A prática de tráfico internacional de animais ainda não foi comprovada, mas especialistas que atuam no combate a essa atividade veem todos os sinais do crime na história brasiliense. Nos últimos anos, cresceu imensamente o interesse de brasileiros por serpentes exóticas, dando uma nova cara a esse mercado clandestino no país.

“O Brasil, por ser grande detentor de biodiversidade, sempre figurou como exportador de animais exóticos vendidos ilegalmente. O que tem mudado nos últimos anos é o papel do Brasil, que passou a ser, também, importador ilegal de animais”, diz o coordenador-geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini.

Durante cinco meses, a ONG de Giovanini infiltrou-se em 250 grupos de WhatsApp brasileiros dedicados à comercialização de animais silvestres e exóticos e acompanhou mais de 3,5 milhões de mensagens. A maioria dos grupos é intermediada por comunidades do Facebook, que chegam a reunir mais de 100 mil pessoas. Chama a atenção a crescente presença de jovens nas negociações clandestinas. “Eles têm se tornado, cada vez mais, colecionadores de serpentes. E, como em todo hobby, existem os troféus, que são as mais perigosas, mais peçonhentas e mais difíceis de achar”, diz o coordenador.


"Tráfico de serpentes é uma questão que está intimamente ligada à vaidade e os jovens têm se tornado cada vez mais 'hobbystas' de serpentes. O animal se transforma em troféu. Nesse caso, o troféu são as serpentes mais perigosas, mais peçonhentas e mais difíceis de achar" - Dener Giovanini - coordenador geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas)
 

Imporante lembrar também que no Brasil é possível fazer a criação de animais exóticos de forma legal. 
“Não é barato”
No monitoramento — ocorrido entre abril e agosto de 2019 e que rendeu uma denúncia encaminhada à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal —, a ONG descobriu que uma naja africana ou asiática custa até R$ 7 mil no mercado ilegal. Se a cobra for nascida em território brasileiro, em criadouro clandestino, é negociada a preços mais baixos, com um filhote valendo em torno de R$ 1 mil. Em um dos anúncios captados pela Renctas, uma naja de monóculo, a mesma espécie que picou Pedro Henrique, é oferecida com um alerta: “Não é barato. Não é para quem começou o hobby agora. Tenho casal disponível”.

Cartões de crédito e débito e depósitos em conta bancária são os métodos mais comuns de pagamento, mas relógios e joias também são aceitos em troca ou como parte do valor pago pelos animais. É comum, ainda, os traficantes de serpentes agendarem encontros para a entrega de animais peçonhentos em shopping centers, transportando-os em mochilas.

Ainda segundo levantamento do Renctas, as serpentes que chegam ao Brasil são provenientes, principalmente, da África, Ásia e Austrália, e entram no país pelas fronteiras com Suriname, Guiana e Uruguai. Entre as exóticas regularmente traficadas estão as najas, a king snake (cobra-rei), as mambas-negras e verdes, a víbora-do-gabão e a taipan-do-interior, considerada a espécie mais venenosa do mundo. Essas são serpentes que se adaptam bem ao Brasil, e o monitoramento identificou a queda no preço desses animais, um sinal de que estão sendo reproduzidas em cativeiro no país.

Riscos ambientais
Estima-se que o tráfico de animais silvestres movimente, aproximadamente, US$ 20 bilhões por ano em todo o mundo. O Brasil, acredita Giovanini, é responsável por 15% desse mercado, que, além de expor os animais a situações de maus-tratos, gera uma série de riscos, tanto para quem compra quanto para a população em geral. Animais, quando não manejados adequadamente, podem escapar e entrar em residências. O crime também ameaça o equilíbrio ecológico e eleva os riscos sanitários para a população.

“A interação entre animais e o ser humano não é considerada boa porque animais silvestres podem ser vetores de doenças letais para os seres humanos. A mesma coisa é o inverso, quando o homem invade o habitat do animal, ele também está sujeito a adquirir doenças. É o caso do novo coronavírus, por exemplo, que surgiu, possivelmente, da interação entre o animal silvestre e o homem”, ressalta o biólogo Jair Neto Vieira.

Existe, também, o risco evidente para quem adquire um animal silvestre, como mostrou o episódio com Pedro Henrique. “É uma situação complexa e grave. A história ocorrida em Brasília serve para alertar pais de jovens e adolescentes, principalmente porque não há soro antiofídico no Brasil para alguns desses animais traficados”, ressalta Marco Freitas, herpetólogo e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Freitas diz não ter dúvidas sobre a existência de uma rede de tráfico de animais no DF. “Brasília está vivendo o caos do tráfico de animais. O que se descobriu não é nem a ponta do iceberg ainda”, afirma. A mesma certeza tem o delegado Willian Ricardo, da 14ª Delegacia de Polícia (Gama), responsável pelas investigações iniciadas após o episódio da naja. “Os envolvidos não disseram como conseguiam as serpentes. Há suspeitas de que, possivelmente, eles iam comercializar as cobras apreendidas”, diz.

"Brasília é cercada por unidades de conservação. Se um animal como a king snake (cobra originária da América do Norte) se adapta ao ambiente do Parque Nacional, por exemplo, ela vai competir, predar e extinguir espécies nativas. O que vai ajudar no desequilíbrio ecológico e levar doenças para as nossas espécies que não têm defesa" - Marco Freitas, herpetólogo e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)

De janeiro a dezembro de 2019, o Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) resgatou 2.925 animais silvestres em todo o Distrito Federal. Foram 1.274 aves, 980 mamíferos e 671 serpentes. Em comparação com o ano anterior, que somou 2.346 resgates, houve um aumento de 24,68%.

Tanto manter animais silvestres presos quanto traficar são crimes ambientais. A pena varia de seis meses a um ano de detenção, multa e assinatura de termo circunstanciado de ocorrência (TCO), com o compromisso de se apresentar em juízo quando intimado. Em caso de maus-tratos, a multa é de R$ 500 a R$ 5 mil.

Entrega voluntária 
A legislação brasileira permite a criação de serpentes como animais de estimação, contanto que não sejam peçonhentas. Para isso, o interessado deve solicitar autorização ao órgão ambiental estadual (no Distrito Federal, o Instituto Brasília Ambiental) e seguir regras para a criação, como mantê-la em local apropriado.

Quem mantém animais silvestres ou exóticos de forma irregular pode fazer a entrega voluntária ao Ibama em todas as unidades do país, sem sofrer punição. A população também pode denunciar suspeitas de criação pela Linha Verde, no telefone 0800-618080, no 190 ou pelo (61) 9 9351-5736 (telefone e WhatsApp do Batalhão de Polícia Militar Ambiental).
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