Pernambucana relembra fuga a pé por Manhattan no dia dos atentados de 11 de setembro
Eduarda Ribeiro estava havia menos de um mês nos Estados Unidos quando viu, do telhado de um prédio, Nova Iorque parar; ela cruzou parte da ilha de Manhattan a pé, entre sirenes e destroços, até encontrar um lugar seguro
Publicado: 11/09/2026 às 14:07
Imagens reais do atentado do dia 11 de setembro em Nova York (Arquivo pessoal)
Tudo começou às 8h46, no horário local, quando um avião atingiu a primeira torre do World Trade Center. A pernambucana Eduarda Ribeiro, atualmente diretora-criativa da Pólen, um ateliê de flores e plantas no Rio de Janeiro, ainda dormia a cerca de dez quarteirões dali. Tinha desembarcado nos Estados Unidos havia menos de um mês para estudar, trabalhar e aperfeiçoar o inglês.
Eduarda morava na casa do namorado de uma amiga, em Tribeca, bairro de prédios industriais reconvertidos em lofts na ponta sul de Manhattan, em Nova York, vizinho ao antigo complexo do World Trade Center. Achou, a princípio, que o som viesse da obra de uma rua próxima, como o barulho de metal contra metal, algo que já fazia parte da paisagem sonora daquele canto da cidade. Foram as sirenes, cada vez mais numerosas e sobrepondo-se umas às outras sem intervalo, que a tiraram da cama.
Levantou-se num daqueles apartamentos antigos, de teto alto e uma parede inteira de vidro fixo, do tipo que não abre. Olhou para a rua, lá embaixo, e viu uma cena que não fazia sentido sozinha: todo mundo parado, olhando para cima, na sua direção. "Percebi que tinha acontecido alguma coisa e tive a ideia de subir no telhado para ver o que estava rolando", conta.
Subiu descalça, mais dois ou três lances de escada além do seu andar, sobre um piso empoeirado que lembraria depois com uma clareza estranha, dado tudo o que viria a seguir. Ao descer à procura de um chinelo, encontrou seu anfitrião americano, professor universitário da Columbia, que voltava de um café na padaria. Partiu dele a notícia, ainda fragmentada, dita entre o susto e a pressa: a cidade estava cheia de bombas e era melhor ir embora antes que mais algo caísse.
O plano dos dois virou uma fuga a pé: atravessar boa parte da ilha de Manhattan até o encontro da namorada do professor - e amiga de Eduarda - , que tinha acesso aos carros da universidade, possibilitando a fuga dos três para um centro de pesquisa sobre pássaros da Rockfeller University, a cerca de 130km dali. Ela pegou o passaporte, dinheiro, uma muda de roupa e saiu.
Pelo caminho, o cenário descrito por Eduarda lembra menos o caos reproduzido por filmes de catástrofe e mais o retrato de uma cidade inteira tentando se organizar diante do inexplicável. Os telefones pararam de funcionar ao mesmo tempo — um apagão que ela compara ao temido bug do milênio, ocorrido no ano anterior.
Sem sinal celular, os carros estacionados nas ruas se tornaram o único elo com a informação: proprietários sentados dentro dos veículos com o rádio no volume máximo e pedestres parados ao redor tentando escutar. Ao redor desses automóveis, formavam-se pequenas rodas de desconhecidos que conversavam sem cerimônia, hábito raro na rotina nova-iorquina.
Foi justamente em uma floricultura de Nova York que ela acabou trabalhando nos anos seguintes, durante quatro anos, uma coincidência que nota sem exagerar o peso. "Podia ter sido eu", resume. É nessa frase simples, mais do que em qualquer imagem de destroços, que mora a lembrança registrada por ela.