ONU denuncia possível "limpeza étnica" decorrente das operações de Israel na Cisjordânia
Segundo relatório, agentes foram de porta em porta forçando moradores a abandonar suas casas; militares mataram civis, destruíram casas, cortaram fornecimento de água e energia e impediram o acesso de ajuda humanitária
Publicado: 04/09/2026 às 14:57
ONU indica ter preocupações quanto a possíveis crimes contra a humanidade (ZAIN JAAFAR / AFP)
As Nações Unidas acusaram nesta sexta-feira as forças de segurança de Israel de deslocar à força populações inteiras de palestinos em três campos de refugiados na Cisjordânia, no âmbito de várias operações realizadas em janeiro e fevereiro de 2025, antes de acrescentar que continuam agindo para impedir seu retorno, o que gera temores de uma possível "limpeza étnica".
O relatório, intitulado "Destruição de campos de refugiados palestinos no norte da Cisjordânia" e elaborado pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, aponta que militares, pocoliciais e outras forças mobilizadas na região mataram civis, destruíram centenas de casas, danificaram estradas e outras infraestruturas, cortaram o abastecimento de água e eletricidade e proibiram o acesso humanitário aos campos de Jenin, Nur Shams e Tulkarem.
Assim, o relatório destacou que as forças de segurança foram de porta em porta, forçando os moradores a abandonar suas casas, e detalhou que cerca de 52% das estruturas no campo de Jenin, bem como 48% e 36% das de Nur Shams e Tulkarem, respectivamente, foram destruídas ou danificadas pelas operações, até outubro de 2025.
"Poucos dias após o início da operação 'Muro de Ferro', as forças de segurança israelenses consolidaram seu controle sobre os campos de refugiados de Jenin, Nur Shams e Tulkarem e deslocaram à força toda a sua população", afirma o documento, que se baseia na monitoria e documentação independentes do Escritório de Direitos Humanos da ONU.
O escritório recebeu informações de alguns deslocados que afirmaram ter recebido a ordem de que não haveria mais campos de refugiados e de que "todos deveriam ir para a Jordânia".
Nesse sentido, o relatório aponta para um deslocamento sistemático em grande escala e de longa duração de mais de 33 mil palestinos desses campos de refugiados durante esse período - no qual também foi documentada a morte de mais de cem palestinos, incluindo 21 crianças-, o que suscita preocupações quanto a possíveis crimes contra a humanidade por transferência forçada de população.
O relatório destaca que o uso de ataques aéreos, escavadeiras blindadas e detonações controladas para tornar campos inteiros inabitáveis, forçar o deslocamento de seus residentes e impedir seu retorno, na ausência de uma necessidade militar imperativa, parece constituir uma "punição coletiva" e poderia equivaler a uma "limpeza étnica".
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, destacou que "a forma como a operação 'Muro de Ferro' foi conduzida sugere que seu objetivo era expulsar o maior número possível de palestinos e abrir caminho para mais assentamentos israelenses ilegais, em uma nova violação do Direito Internacional".
"Israel deve pôr fim aos seus 59 anos de ocupação do território palestino e cessar qualquer tentativa de deslocar à força mais palestinos e de continuar a interromper a continuidade de um futuro Estado palestino", afirmou Turk, de acordo com um comunicado divulgado pelo órgão na sequência da publicação do relatório.
Turk enfatizou que Israel "deve adotar medidas para cumprir suas obrigações nos termos do Direito Internacional, conforme esclarecido pela conclusão explícita da Corte Internacional de Justiça (CIJ), há mais de dois anos, de que deve pôr fim à sua presença ilegal no território palestino ocupado o mais rápido possível".