AIE alerta que o mundo enfrenta a sua maior ameaça energética
A dimensão das perdas já ultrapassa outros momentos críticos da história recente
Publicado: 20/03/2026 às 18:31
Agência Internacional de Energia (AIE) (Joe Klamar/AFP)
O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, alertou hoje que o mundo enfrenta a maior ameaça energética da história devido à guerra no Irã. “A dimensão das perdas já ultrapassa outros momentos críticos da história recente. O volume de gás afetado pela guerra é aproximadamente o dobro daquele que a Europa deixou de receber da Rússia depois da invasão da Ucrânia, em 2022. Já no caso do petróleo, as quebras superam as registradas durante as crises energéticas da década de 1970”, disse em entrevista ao jornal Financial Times.
Para Birol, o restabelecimento operacional dos fluxos de petróleo e gás no Golfo Pérsico pode levar seis meses ou mais, afirmando ainda que os políticos e os mercados também subestimam a extensão dessa interrupção do escoamento no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do mundo, e de algumas instalações energéticas.
Isso porque, segundo o diretor da AIE, cerca de um quinto das reservas que passa pelo Estreito de Ormuz está paralisado, além de estruturas de energia de países produtores da região terem sofrido danos, alguns severos, com os recentes ataques iranianos.
"Há consciência de que é um desafio grave, mas não estou certo de que a profundidade e as consequências reais da situação estejam sendo plenamente compreendidas", sublinhou Birol.
“A crise também afetou o fornecimento mundial de fertilizantes para culturas agrícolas, produtos petroquímicos para plásticos, roupas e manufatura. Trata-se de matérias-primas cruciais para a economia global”, acrescentou.
As declarações de Birol acontecem num cenário em que o preço do petróleo Brent superou os 110 dólares por barril e chegou a se aproximar dos 120 dólares, apos os ataques com mísseis nessa semana contra centros energéticos vitais e críticos, como o campo de gás South Pars do Irã, realizado por Israel, e a retaliação iraniana no complexo industrial de Ras Laffan, no Catar. Assim como os bombardeios de Teerã que ocorreram em refinarias na Arábia Saudita e o Kuwait.
A refinaria de petróleo e gás de Mina Al Ahmad, no Kuwait, foi especificamente mencionada como alvo. Mas as instalações de gás nos Emirados Árabes Unidos indicaram uma suspensão que foi provocada pelos danos causados por detritos de armamentos na área do porto de Jebel Ali.
Recentemente a AIE anunciou a liberação de 400 milhões de barris de petróleo e produtos refinados das reservas globais para aliviar a escassez do mercado, que, segundo Birol, representa somente 20% das reservas. "Mas, a medida mais importante que deve ser tomada é a volta do trânsito pelo Estreito de Ormuz", enfatizou.
Apesar das medidas para aumentar ao oferta e conter a escalada de preços que estão sendo implementados pelos EUA, Europa e Ásia, o diretor da AIE avalia como insuficientes para compensar a perda de fornecimento do Oriente Médio.
A Agência Internacional de Energia recomendou ainda que ações como a redução do consumo, o aumento de home office, a limitação de viagens aéreas e a imposição de limites de velocidade sejam adotadas.
No entanto, Birol avisou à Europa que não retome a dependência do gás russo, embora a medida já tenha sido levantada. “Além de questões geopolíticas, o preço desse fornecimento está historicamente indexado ao petróleo, tornando-o pouco competitivo nas atuais condições de mercado. O gás russo custaria aproximadamente o mesmo que o preço atual do gás na Europa", explicou.
O diretor apontou ainda que a crise energética pode desencadear mudanças políticas nos governos do mundo, e comparou o contexto com as crises do petróleo de 1973 e 1979.