° / °
Mundo
ORIENTE MÉDIO

ONU limitou Conselho de Paz criado pelos EUA a intervir apenas em Gaza

Até o momento, cerca de 60 países foram convidados para integrar o Conselho

Isabel Alvarez

Publicado: 23/01/2026 às 15:43

Sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York/Daniel Slim/AFP

Sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York (Daniel Slim/AFP)

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas autorizou o Conselho da Paz criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que atue apenas sobre a Faixa de Gaza. “A nova entidade não está mandatário para trabalhar sobre outras áreas de conflito a nível internacional”, diz o organismo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou que o Conselho de Paz estruturado e lançado por Trump é, por enquanto, apoiado pelo órgão estritamente no trabalho do enclave palestino.

"O Conselho de Paz, em termos do que vai fazer, continua amorfo. Teremos que ver o que fará. Estamos nos mantendo fiéis ao nosso programa. A ONU tem a sua Carta, uma longa história de conquistas e um amplo conjunto de tarefas que devemos cumprir constantemente, e é isso que estamos a fazer”, disse Farhan Haq, porta-voz adjunto de Guterres.

A possibilidade do Conselho de Paz também ter poderes em relação à guerra da Ucrânia, reabrindo a porta internacional a Vladimir Putin é um dos pontos citados pelas Nações Unidas para justificar que o organismo proposto por Trump não se envolva em outros assuntos. Um dos mais reticentes é ainda o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Zelensky e Vladimir Putin foram convidados a integrar o Conselho, porém o líder ucraniano destacou que será difícil "imaginar" como o poderá fazer ao lado de alguém que ataca diariamente o seu país.

Até o momento cerca de 60 países foram convidados para integrar o Conselho, sendo que 20 aceitaram o convite, mas diversos países recusaram como o Reino Unido e a França. O porta-voz do ministério das Relações Exteriores francês, Pascal Confavreux, enfatizou que por um lado o Conselho não corresponde ao mandato puro sobre Gaza, que nem é mencionado, e, por outro lado, há elementos desta carta que estão em contradição com a Carta das Nações Unidas

O primeiro-ministro português Luís Montenegro também avisou que qualquer visão alternativa às Nações Unidas é desajustada e não terá o acolhimento de Portugal. “Não há alternativa às Nações Unidas, é nas Nações Unidas que o contexto multilateral se expressa e deve se evidenciar. Mas a ideia de poder haver um Conselho de Paz para acompanhar e monitorizar o processo de paz na Faixa de Gaza pode eventualmente ter algum desenvolvimento e alguma participação de Lisboa”, adiantou.

Por sua vez, o Hamas exortou o Conselho da Paz a obrigar Israel a cumprir o plano norte-americano de 20 pontos que antecedeu o cessar-fogo em Gaza. "Apelamos ao Conselho da Paz para que assuma as suas responsabilidades de pôr fim às violações da ocupação e fazer com que Israel cumpra as suas obrigações nos termos do acordo", afirmou o Hamas, apontando a entrada de ajuda humanitária e materiais para abrigo, assim como o início da reconstrução da região palestina.

O grupo assinalou que, desde a entrada em vigor da trégua, em outubro do ano passado, pelo menos 484 palestinos foram mortos por disparos do exército israelense e quase 1.300 ficaram feridos, em ataques quase diários que, na última quarta-feira, vitimaram 11 pessoas, entre as quais três jornalistas. “Os líderes participantes no Fórum Econômico Mundial dirigem ameaças para o lado palestino, que continua empenhado no acordo, em vez de abordarem os ataques israelenses, a retirada das suas tropas do enclave, ou o encerramento das passagens fronteiriças com a Faixa de Gaza”, apontou o Hamas.

Em contrapartida, Jared Kushner, genro de Donald Trump, na cerimônia de assinatura do Conselho de Paz, em Davos, disse que não há plano B. “Temos um plano. Assinamos um acordo. Estamos todos comprometidos em fazer esse acordo funcionar”, sublinhou. Kushner pediu a todos que se acalmem durante 30 dias. “Eu acho que a guerra acabou, vamos fazer o nosso melhor para tentar trabalhar juntos, o nosso objetivo aqui é a paz entre Israel e o povo palestino”, concluiu.


Já Trump advertiu o Hamas caso o grupo não se desarme, uma etapa que faz parte da segunda fase do cumprimento do acordo. “Foi com isso que eles concordaram. Têm de fazê-lo. E nós vamos saber nos próximos dois ou três dias, certamente nas próximas três semanas, se eles vão ou não fazer isso. Se não o fizerem, vão ser desarmados muito rapidamente. Vão ser arrasados", ameaçou.

Segundo a Casa Branca, o Conselho de Paz é um novo organismo internacional que terá um papel consultivo e visa assessorar o comitê responsável pela administração provisória e a reconstrução de Gaza. Washington indicou que o Conselho ajudará a apoiar uma governança eficaz e uma prestação de serviços de alto nível na promoção da paz, estabilidade e prosperidade da população de Gaza. Para Trump, o Conselho promoverá a estabilidade global e para ser membro precisa desembolsar 1 bilhão de dólares. Entretanto, o órgão é criticado por diplomatas e analistas, que ainda garantem que o organismo diluirá o poder das Nações Unidas. O vazamento do estatuto do Conselho divulgado por agências de notícias apontou que sua política não se limita a Gaza porque visa intervir na resolução de conflitos armados no mundo.

 

Jornalistas querem investigação

Enquanto isso, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) exigiu uma investigação transparente pela morte dos três jornalistas num ataque das forças israelenses contra um veículo no centro de Gaza. "O CPJ condena o ataque israelense contra um veículo civil claramente identificado no centro de Gaza, que causou a morte dos fotojornalistas independentes Mohammad Salah Qashta, Anas Ghnaim e Abed Shaat,colaborador da agência de notícias France-Presse - AFP, durante um cessar-fogo em vigor", declarou Sara Qudah, diretora do comitê para o Oriente Médio,

Qudah ressaltou que Israel possui tecnologia avançada capaz de identificar os seus alvos e tem a obrigação, nos termos do direito internacional, de proteger os jornalistas.

A AFP também pediu uma investigação completa e transparente pela morte de Shaat, de 34 anos, que colaborava na produção da agência há quase dois anos. A agência francesa acrescentou que demasiados jornalistas locais foram assassinados em Gaza nos últimos dois anos, enquanto os jornalistas estrangeiros continuam sem poder entrar livremente no território.

Pelo menos mais de 200 jornalistas e profissionais da comunicação social palestinos foram mortos em Gaza, a grande maioria por Israel, desde o início da guerra em 2023.

 

Mais de Mundo

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas