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Beto Lago: 'O futebol tem uma dinâmica própria'

Hoje, é cada vez mais comum ver dirigentes assumindo funções estratégicas sem essa formação

Por Beto Lago

Ilha do Retiro, estádio do Sport

Lições esquecidas
Ao perder o Pernambucano de 1987 para o Santa Cruz, que conquistou o bicampeonato estadual, a diretoria de futebol do Sport tomou uma atitude rara e digna de registro. Ainda no vestiário, todos os dirigentes colocaram seus cargos à disposição do presidente Homero Lacerda.

Foi um gesto de responsabilidade e, acima de tudo, de respeito ao clube. Homero ganhou liberdade para reconstruir o futebol rubro-negro da forma que julgava necessária. Apenas Severino Otávio, o Branquinho, permaneceu, a pedido do próprio presidente. O restante da história o torcedor leonino conhece bem. Resgato esse episódio porque ele ilustra uma diferença marcante entre os dirigentes de ontem e os de hoje. Não se trata de dizer que antigamente tudo era melhor.

O futebol mudou, tornou-se uma indústria bilionária, mais complexa e profissional. Mas havia uma característica que parece ter se perdido: o conhecimento profundo dos bastidores do futebol. Os dirigentes do passado, em sua maioria, construíam uma trajetória antes de chegar ao comando. Passavam pelas categorias de base, acompanhavam treinos, conheciam jogadores e empresários, entendiam o funcionamento do departamento de futebol e aprendiam, na prática, a administrar crises.

Erravam, naturalmente. Mas erravam conhecendo o ambiente em que estavam inseridos. Não foi coincidência. Foi consequência de uma formação construída ao longo do tempo. Antes de comandar, aprenderam. Antes de decidir, ouviram. Antes de cobrar resultados, entenderam como o futebol funciona por dentro.

Hoje, é cada vez mais comum ver dirigentes assumindo funções estratégicas sem essa formação. Muitos chegam pela força política, sucesso empresarial ou capacidade administrativa, acreditando que isso basta. Não basta. O futebol tem uma dinâmica própria, exige leitura de vestiário, percepção de mercado, conhecimento técnico e sensibilidade para tomar decisões que nem sempre cabem em planilhas.

Equilíbrio entre o velho e o novo
Isso não significa desprezar a profissionalização. O futebol moderno precisa de executivos qualificados, governança e gestão eficiente. Mas também precisa de dirigentes que conheçam sua essência. O equilíbrio entre administração e vivência no futebol costuma produzir decisões mais consistentes. Talvez por isso o gesto daqueles dirigentes de 1987 continue tão atual.

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Qualidades raras no futebol
Hoje o mais comum é a busca por culpados externos: treinador, árbitro, elenco, imprensa, torcida. A autocrítica virou exceção. O futebol muda, mas princípios permanecem. Humildade para reconhecer erros, responsabilidade para assumir consequências e conhecimento para tomar decisões são atributos indispensáveis para quem pretende dirigir um grande clube. Infelizmente, são qualidades cada vez mais raras nos bastidores do futebol brasileiro.

Hora da verdade no Tricolor
Não existe outra saída para o Santa Cruz: ou se abraça o projeto ou o clube segue mais um ano na Série C. Ficar esperando uma SAF é que não dá mais. A torcida chega sempre. Falta a diretoria abrir o clube para que todos possam participar. Sem vaidades, sem inveja, sem política, sem picuinhas. Unicamente por amor ao Tricolor.