Beto Lago: "Balanços vão apresentar realidade financeira de Sport, Náutico e Santa Cruz
Abril caminha para ser mais decisivo fora de campo do que dentro dele. Até o dia 30, os clubes precisam apresentar seus balanços de 2025
Publicado: 22/04/2026 às 12:07
Ilha do Retiro, estádio do Sport (Rafael Vieira)
O mês da verdade
Abril caminha para ser mais decisivo fora de campo do que dentro dele. Até o dia 30, os clubes precisam apresentar seus balanços de 2025. No Sport, também se espera o resultado da auditoria independente contratada pela atual gestão. Trata-se de um raio-x tardio de estruturas que há anos operam no limite. O Trio de Ferro já não consegue esconder o padrão: passivos elevados, fluxo de caixa estrangulado e atrasos que deixaram de ser exceção para virar método. O cenário não é novo. O que muda agora é a urgência. No Sport, a Recuperação Judicial representou controle e previsibilidade, e vem sendo cumprida. Já Náutico e Santa Cruz seguem presos a indecisões que alimentam incertezas sobre seus próprios processos. E incerteza, em ambiente financeiro fragilizado, cobra juros altos. A origem do problema é conhecida, quase cansativa de repetir: gestões que apostaram mais no que poderia entrar do que no que efetivamente existia. Receita projetada virou muleta. Planejamento virou retórica. E o futebol sempre apresenta a fatura. É nesse ponto que a auditoria deixa de ser peça burocrática e passa a ser instrumento de confronto com a realidade. Não se trata de organizar números. Trata-se de expor práticas e vícios estruturais. Onde está o verdadeiro gargalo? Na folha inflada? Em contratos mal desenhados? No passivo tributário? Ou na ausência crônica de governança? O torcedor, historicamente engajado, hoje convive com desconfiança crescente. E com razão. Sem clareza, não há reconstrução de credibilidade. Sem credibilidade, não há futuro sustentável. Abril não pode ser apenas o mês da entrega de documentos. Precisa ser o mês das respostas. E, principalmente, da responsabilização de quem decide.
Déficit como rotina
Na última reunião do Conselho do Náutico, os números apresentados pelo Executivo deixaram de lado qualquer tentativa de maquiagem: o balanço virá com resultado significativamente negativo. O problema já não é mais o tamanho do rombo. É a sua repetição. O déficit deixou de ser um evento isolado para se tornar padrão operacional. E quando o prejuízo vira rotina, não existe mais espaço para tratar como acaso, crise momentânea ou herança.
O acaso como plano
“O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído”, canta Epitáfio, dos Titãs. A frase, lembrada pelo amigo Milton Coelho, encaixa com desconfortável precisão no momento do Sport. A efetivação de Márcio Goiano não era plano A, nem B. Talvez nem estivesse no alfabeto leonino. Surgiu como solução emergencial e foi abraçada como saída possível. E não há problema em reconhecer isso. O futebol, por vezes, se resolve no improviso, como lembrou Milton. Em 1990, o próprio Sport viveu cenário semelhante na Série B: limitações, incertezas e um elenco montado sob pressão. O desfecho foi o acesso.
Mas romantizar o acaso é perigoso
Ele pode, sim, oferecer respostas rápidas quando o tempo não permite planejamento. Pode apagar incêndios. O que não pode é virar política de gestão. Márcio Goiano tem como missão reorganizar um time que ainda não se encontrou. E, mais do que isso, de provar que a escolha não foi apenas circunstancial, mas, no fim, acertada. Se der certo, será competência. Se não, ficará claro que o Sport voltou a depender mais da sorte do que de método. E isso, historicamente, cobra seu preço.