Beto Lago: "Quando nasce o 'Professor Pardal'"
No mundo do futebol, o 'Professor Pardal' é o técnico que inventa demais
Publicado: 03/03/2026 às 08:35
Roger Silva, técnico do Sport (Paulo Paiva/ Sport)
Professor Pardal
Há uma linha tênue entre a ousadia e a caricatura no futebol brasileiro. E quando o treinador cruza essa linha, ao menos na percepção quase sempre correta do seu torcedor, nasce a alcunha de “Professor Pardal”. Não é um apelido novo, tampouco inocente. Ele carrega ironia, impaciência e, sobretudo, desconfiança. A origem está no personagem Professor Pardal, das histórias do universo Disney, nas HQs do Pato Donald. Um inventor compulsivo, criador de engenhocas mirabolantes, quase sempre convencido de que sua genialidade resolveria qualquer problema. No futebol, o paralelo é direto: o técnico que inventa demais, complica o simples e acredita que a solução está na surpresa, mesmo quando o básico ainda não foi consolidado. Mas o rótulo não nasce apenas da mudança. Mudar faz parte do jogo. O que incomoda é a sensação de desconexão. Quando o treinador altera esquema, posicionamento e escalação sem que o time demonstre evolução, a crítica entende como desespero, não como estratégia. A diferença está na coerência. O treinador estrategista adapta mantendo identidade. Pode trocar peças, ajustar linhas, explorar fragilidades do adversário, mas há um fio condutor reconhecível. Já o chamado “pardal” altera buscando identidade. Um jogo com três zagueiros, no outro com dois; um ponta improvisado de ala; um volante de zagueiro; um meia aberto na beirada; ou um time sem meia. A equipe perde referência. O torcedor perde confiança. A cada semana, um laboratório.
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Feijão com arroz
Existe também a vaidade tática. Alguns profissionais parecem querer vencer no quadro magnético antes de vencer no campo. Quando a invenção funciona, são tratados como gênios. Quando falha, viram alvo imediato. E se irritam em entrevistas quando confrontados. O futebol brasileiro valoriza o “feijão com arroz bem feito”. A torcida aceita derrota por inferioridade técnica; dificilmente aceita derrota por invenção.
Ato de ansiedade
Há ainda o ruído externo. Dirigentes pressionam, empresários influenciam, a arquibancada exige reforço em campo. O treinador inseguro tenta contemplar todos os lados e, nessa tentativa, descaracteriza o time. O que deveria ser ajuste vira ruptura. No fundo, o apelido é menos sobre criatividade e mais sobre falta de convicção. O futebol aceita inovação quando tem lastro, treino, padrão, repetição. O que não aceita é a mudança como ato de ansiedade.
Do outro lado
E tem aquele treinador que tem o elenco nas mãos. Dono de um modelo de jogo claro, assimilado e reconhecido pelos seus atletas. Quando a escalação é divulgada, o torcedor já sabe o que esperar. Em trabalhos assim, o erro costuma ser exceção. Quando a punição chega, quase sempre nasce menos da ideia e mais da execução, de um time que cria, mas não sabe matar o jogo. Aqui é que vem preocupação do seu torcedor. Principalmente, quando isso acontece em uma decisão.