Beto Lago: 'A incoerência entre o discurso e a prática quando o assunto é a base'
Os clubes pernambucanos gastam mal, planejam mal e confiam pouco em quem eles mesmos formam
Publicado: 02/01/2026 às 08:02
Taça da Copinha (Divulgação/Copinha)
A incoerência
A Copa São Paulo de Futebol Júnior começa, mais uma vez, como vitrine. Sport, Santa Cruz, Retrô e Náutico estreiam diante de clubes paulistas: o Leão hoje a Linense; amanhã, o Tricolor diante do Botafogo, e a Fênix contra o São Bento; e o Timbu, no domingo, frente o Novorizontino. Mas, para os clubes pernambucanos, a competição insiste em escancarar algo bem mais profundo do que o simples talento dos garotos: a incoerência histórica entre discurso e prática quando o assunto é base. Nossos clubes levam jovens promissores, todos falando em “formação”, “processo” e “futuro”. O problema é que esse futuro quase nunca chega ao presente. A Copinha passa, os garotos voltam, e o profissional segue fechado para eles – e pior, seguimos contratando atletas das bases dos clubes do Sul e Sudeste. O Náutico foi exceção no ano passado. Muito por mérito direto de Hélio dos Anjos, que na reta final da Série C não teve pudor em lançar jovens, confiou, bancou erros e colheu respostas. Kauã Moreira, Kevyn e outros exemplos mostram que quando há convicção, a base responde. Não é milagre. É trabalho e, sobretudo, coragem. No Sport, o paradoxo é ainda mais gritante. O clube admite que usará o Sub-20 no início do Estadual, mas corta jogadores da Copinha porque eles “podem ser úteis no profissional”. Ora, se são úteis, por que não são aproveitados? A base vira sempre plano emergencial, nunca projeto esportivo. Serve para tapar buraco – como foi no início do ano passado –, mas não para construir elenco. O Santa Cruz, atolado em dificuldades financeiras, coloca na Copinha uma equipe que vem junto desde o infantil, mas precisa definir uma ponte clara e estruturada com o time de cima. Já o Retrô, referência nacional em categorias de base e presença constante em competições nacionais, também esbarra no mesmo dilema: revelar é uma coisa, utilizar é outra bem diferente.
Apostas frágeis e descartáveis
E aqui mora o ponto central, que precisa ser dito sem rodeios: os clubes pernambucanos gastam mal, planejam mal e confiam pouco em quem eles mesmos formam. Preferem buscar garotos do Sul e do Sudeste, muitas vezes medianos, caros para a realidade local e sem identidade, enquanto tratam seus próprios atletas como apostas frágeis, quase descartáveis.
Método, continuidade e uso real
Se a base dos nossos clubes não entrega jogadores prontos para competir no profissional, o problema não é o atleta. É o modelo. É o treinador que não olha, o dirigente que não banca, o departamento que não integra, o clube que não tem paciência nem convicção. Formação não é discurso bonito em entrevista. É método, continuidade e uso real.
Base é escolha política
A Copa São Paulo de Futebol Júnior, ano após ano, não deveria ser apenas um palco de visibilidade. Deveria ser um espelho. E o reflexo que ela devolve ao futebol pernambucano ainda é incômodo: revelamos, mas não aproveitamos. Formamos, mas não confiamos. E enquanto isso não mudar, seguiremos pobres de ideias, dependentes do mercado e distantes de um futebol mais sustentável. Base não é promessa. Base é escolha política. E, até agora, nossos clubes seguem escolhendo mal.