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Cristian de Souza vence desconfiança e conquista com o Santa Cruz primeiro acesso na carreira

Técnico chegou após deixar o líder Amazonas e conduziu o Tricolor de volta à Série B

Ivan Mota

Publicado: 03/10/2026 às 19:11

Cristian de Souza, técnico do Santa Cruz/Rafael Vieira

Cristian de Souza, técnico do Santa Cruz (Rafael Vieira)

Quando Cristian de Souza desembarcou no Recife, em maio, o Santa Cruz vivia um dos momentos mais delicados da temporada. Após cinco rodadas da Série C, o Tricolor tinha apenas quatro pontos e ocupava a 15ª colocação, próximo da zona de rebaixamento.

Do outro lado estava um treinador que havia deixado o líder da competição para assumir o desafio no Arruda. A escolha representava uma mudança de rota para o técnico de 48 anos. No Amazonas, Cristian fazia uma campanha de destaque e liderava a Série C com 13 pontos e 83% de aproveitamento.

A saída aconteceu em meio às dificuldades financeiras vividas pelo clube amazonense, mas também abriu caminho para uma trajetória que terminaria com o treinador levando o Santa Cruz de volta à Série B.

A mudança deu certo. Após o empate por 1 a 1 com o Maringá neste sábado (3), o Santa Cruz sacramentou o acesso para a Série B. 

"Ver essa massa feliz é muito gratificante. Essa torcida merece muito mais. Jogo muito difícil, mas voltamos ao jogo e conseguimos o objetivo", disse Cristian de Souza, que conquistou seu primeiro acesso em nível nacional. 

Antes mesmo de assumir o Tricolor, Cristian já havia cruzado o caminho dos pernambucanos naquela edição da Série C. Na quarta rodada, ainda como técnico do Amazonas, venceu a Cobra Coral por 1 a 0 na Arena de Pernambuco. Poucos dias depois, os lados da história mudaram: o treinador que havia derrotado o Santa Cruz passou a comandá-lo.

Da liderança da Série C ao desafio no Tricolor

A grandeza do clube e a força da torcida foram determinantes para a decisão. Apresentado no dia 7 de maio, Cristian destacou que o peso da camisa coral havia influenciado sua escolha de trocar o líder da competição por uma equipe que estava na parte de baixo da tabela.

A estreia veio quatro dias depois, diante da Inter de Limeira. E a primeira resposta foi imediata. Com mudança para um sistema com três zagueiros, reintegração de jogadores que estavam fora dos planos e alterações na equipe, o Santa Cruz venceu por 2 a 1 e encerrou um jejum de quatro partidas sem vitória na Série C.

Na sequência, o treinador manteve uma postura de observação e testes. Nos três primeiros jogos, utilizou 21 jogadores e terminou o período invicto, com duas vitórias e um empate, diante de Inter de Limeira, Volta Redonda e Maringá. O aproveitamento inicial foi de 77,7% dos pontos.

Mas o começo positivo não eliminou os problemas. A equipe ainda apresentava dificuldades na criação e dependia de um sistema mais sólido defensivamente para compensar a baixa produtividade ofensiva. A necessidade de encontrar soluções para o meio-campo passou a ser um dos primeiros desafios do novo comandante.

A desconfiança

Cristian também precisou lidar com a pressão natural de comandar um clube de grande torcida em um momento de reconstrução. Logo na sua apresentação, um torcedor que se identificou como conselheiro interrompeu a coletiva para cobrar que o treinador conhecesse a história do Santa Cruz. O episódio expôs o ambiente de cobrança que cercava a chegada do técnico.

Dentro de campo, a evolução foi acompanhada por momentos de oscilação. A derrota por 1 a 0 para o Ypiranga-RS, em junho, interrompeu uma sequência de cinco partidas de invencibilidade de Cristian no comando do Santa Cruz. O próprio treinador reconheceu que uma escolha tática havia contribuído para o resultado.

O principal ponto de interrogação, porém, estava nos jogos em casa. Na primeira fase da Série C, o Santa Cruz fez nove partidas como mandante, com quatro vitórias, um empate e quatro derrotas. Considerando apenas os jogos em casa, a equipe teria terminado com a 14ª melhor campanha da competição.

Uma campanha irregular na Arena de Pernambuco

O desempenho como mandante chegou a preocupar na reta final da primeira fase. Depois de três vitórias consecutivas na competição, o Santa Cruz perdeu para o Figueirense por 1 a 0 na Arena, e Cristian admitiu a dificuldade da equipe para propor o jogo diante de adversários que baixavam as linhas.

“Fica o nosso pedido de desculpas por não ter devolvido com três pontos. A dificuldade de propor e jogar em casa, mais uma vez, ela apareceu”, afirmou o treinador após a partida.

A dificuldade se repetiu diante do Maranhão, quando o Tricolor sofreu nova derrota como mandante e chegou a colocar em risco a classificação para o Quadrangular do Acesso. Mesmo assim, a equipe conseguiu reagir nas rodadas seguintes e chegar à última rodada dependendo apenas de si para avançar.

O conflito com Alex Brasil

Enquanto o time avançava na Série C, os problemas não estavam restritos ao campo. Em julho, o ambiente interno do Santa Cruz foi marcado por um desentendimento entre Cristian de Souza e o executivo de futebol Alex Brasil.

O clima chegou a colocar em dúvida a permanência do treinador. Após uma reunião com o presidente Bruno Rodrigues, porém, ficou decidido que Cristian continuaria no cargo e seguiria à frente do projeto para a sequência da competição.

A turbulência aconteceu justamente durante uma campanha que havia colocado o Santa Cruz novamente entre os principais candidatos à classificação. No início de julho, depois de oito partidas sob o comando do treinador, o Tricolor já acumulava cinco vitórias, dois empates e apenas uma derrota, saltando da 16ª para a quarta colocação.

Fora de casa, a resposta

Se a Arena de Pernambuco representava um problema, os jogos longe do Recife se transformaram em uma das principais forças da equipe de Cristian.

Na primeira fase, o Santa Cruz construiu uma campanha sólida como visitante. A equipe não perdeu nenhuma das partidas fora de casa sob o comando do treinador e chegou ao Quadrangular do Acesso com oito jogos disputados longe de seus domínios, somando cinco vitórias e três empates.

A sequência incluiu vitórias sobre Inter de Limeira, Brusque, Paysandu, Barra e Maringá, além de empates diante de Maringá, Botafogo-PB e Anápolis.

Foi assim que o Santa Cruz conseguiu compensar as dificuldades diante da própria torcida e terminar a primeira fase na oitava colocação, garantindo a última vaga no grupo dos oito classificados. A partir dali, começava uma nova competição.

A defesa como marca

No Quadrangular do Acesso, o trabalho de Cristian ganhou uma característica ainda mais evidente: a organização defensiva.

O Santa Cruz venceu os três primeiros jogos da segunda fase sem sofrer gols. Botafogo-PB, Maringá e Floresta foram derrotados por 1 a 0, e o Tricolor chegou à quarta rodada na liderança do Grupo B, com nove pontos e 100% de aproveitamento.

Às vésperas do confronto decisivo contra o Floresta, Cristian resumiu a importância do trabalho defensivo para a campanha.

“A organização defensiva é uma obrigação nossa para sermos competitivos em um quadrangular tão equilibrado e chegar a uma condição de poder ter a chance do acesso. As equipes que não defenderam bem ficaram pelo caminho”, afirmou.

A transformação foi significativa. O time que havia encontrado dificuldades para controlar partidas em casa na primeira fase passou a apresentar consistência justamente no momento de maior pressão da temporada.

E o próprio Cristian, que desde a chegada pregava cautela e evitava se deixar levar pelos resultados, manteve o discurso mesmo diante da proximidade do objetivo. Após a vitória sobre o Floresta na Arena, afirmou que ainda era necessário pontuar para alcançar a meta principal.

O retorno à Série B

A trajetória iniciada em maio terminou com Cristian de Souza conduzindo o Santa Cruz de volta à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. Nove anos depois da última participação, em 2017, o Tricolor voltou a conquistar o acesso.

Entre a saída do líder Amazonas e a chegada a um Santa Cruz ameaçado pela parte de baixo da tabela, o treinador atravessou diferentes momentos. Teve de reconstruir o time, testar jogadores, modificar o sistema, conviver com cobranças, superar dificuldades como mandante e atravessar uma crise interna.

Cristian de Souza venceu a desconfiança e terminou como o treinador responsável por conduzir o Santa Cruz de volta à Série B, ficando marcado para sempre na história da Cobra Coral.

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