Santa Cruz e o "amor que não tem fronteiras": histórias de torcedores que acompanham o clube longe de Pernambuco
De São Paulo ao Ceará, pernambucanos transformam a distância do Arruda em união pelo Tricolor.
A distância da família e dos amigos não é o único peso na bagagem de quem deixa Pernambuco. Para Gabriel Amorim, Lia Maria, Rubens Sousa, Evandro de Araújo — e tantos outros — significou ter que acompanhar o time do coração, Santa Cruz, a milhares de quilômetros de distância.
O que poderia ser uma experiência de isolamento se transformou, por outro lado, em um ponto de conexão com outros tricolores que passaram por situações similares.
Longe do Recife desde 2024, quando se mudou para São Paulo por motivos de trabalho, Gabriel Amorim, engenheiro de sistemas, resolveu fundar, junto com Daniel Farias, o 'Consulado SampaCruz'.
“A gente não perdia quase nenhum jogo no Recife, então essa distância do Arruda foi um grande baque”, relembra Gabriel Amorim. “Já existia uma galera aqui em São Paulo que se reunia para ver jogo, mas não era nada engajado em rede social, não tinha uma disseminação do que estava acontecendo aqui dentro de São Paulo”, conta.
Coincidentemente, o grupo escolheu um bar com uma ligação com a Cobra-Coral para assistir aos jogos do time.
"Um bar fixo em que a gente assiste jogos, que é o Empanadas Bar, que é de um ex-jogador do Santa Cruz, inclusive que jogou na base nos anos 90", acrescenta Gabriel. “Sempre é bom ter esse contato com o pessoal de Pernambuco fora do estado, as pessoas que saíram do nosso estado. É ter um pedacinho de casa, uma ponte de conexão com o nosso povo”, completa.
Na capital do país, Brasília, Lia Maria passou por uma situação similar em 2019, quando deixou terras pernambucanas.
"Eu e meu filho, Artur, viemos acompanhar meu companheiro, Flávio Moraes, que se mudou a trabalho, e nós todos já éramos tricolores roxos. Ficar sem ver o estádio de perto e sem sentir aquele calor da massa dá um vazio gigante no peito", relata Lia.
Antiga moradora do Alto José Bonifácio, Lia conta o sofrimento que foi ficar longe do Arruda.
"Eu e minha família viemos do Alto José Bonifácio, então dá para imaginar o baque. Quem vive no Alto sabe exatamente do que estou falando. O sentimento pelo Santa continua o mesmo, mas a saudade dessa vivência de sair do Alto direto para a arquibancada é enorme", reflete Lia.
Lá, ela encontrou a Planalto Coral, movimento criado em 2007.
Após um período peregrinando por locais que topassem transmitir os jogos do Tricolor, o grupo estabeleceu um ponto de encontro fixo na Fuck Distribuidora e Tabacaria, localizada na CLN 404, Bloco E, na Asa Norte.
"Como Brasília é a cidade onde ficam os ministérios, eu digo que lá é o Ministério da Planalto Coral", brinca Lia.
Um pouco mais perto de Pernambuco estão os vizinhos da CoralJampa, torcedores do Tricolor que moram em João Pessoa.
A tradição de se juntar para ver os jogos do Santa Cruz na Paraíba acompanha a virada do século. Em 2000, Rubbens Sousa e seu amigo, Eduardo, fundaram o grupo para "manter a paixão pelo Santa Cruz viva mesmo longe do Recife".
"Aqui, acabei conhecendo um grande amigo, Eduardo, que também é torcedor do Santa Cruz. A partir daí, tivemos a ideia de criar um grupo para reunir os tricolores que, por algum motivo, tinham vindo morar em João Pessoa", lembra Rubbens. "E o mais especial é que, este ano, estamos completando 26 anos de existência", celebra.
Hoje, o ponto de encontro do grupo é o Empório Regional, bar no bairro dos Bancários que foi carinhosamente rebatizado pelos torcedores como "Empório Coral". O ambiente é a base para organizar caravanas, dividir a tensão dos 90 minutos e, acima de tudo, viver o Santa Cruz.
"São pessoas que conheci por causa do Santa e que acabaram se tornando grandes amigos, alguns deles verdadeiros irmãos", resume Rubbens.
Para o confronto decisivo do Santa Cruz contra o Floresta, que pode marcar o retorno do clube à Série B pela primeira vez desde 2017, a torcida "800 km de paixão" — grupo de torcedores tricolores de Fortaleza— prepara uma recepção especial com fogos neste sábado (26), no Estádio Presidente Vargas, na capital cearense.
Geralmente com pouco público nos seus jogos, o Floresta abriu portões para receber a torcida da Cobra-Coral, disponibilizando 6 mil ingressos para o time pernambucano.
"A gente tá vendo aí questão de confeccionar uma bandeira nova da torcida. Tem gente fazendo cota aí para contratar aí orquestra, tal. A gente vai fazer uma festa bonita aqui", conta Evandro de Araújo, um dos fundadores do grupo.
Morando em Fortaleza desde 1991 por motivos de trabalho, Evandro conta que a saudade de casa o fazia vestir a camisa do tricolor nos finais de semana, até para ir à missa, na esperança de encontrar outros tricolores.
"Sempre nos finais de semana, sábado e domingo, aqui é litoral, eu sempre usei a camisa do Santa Cruz, sempre. Até para missa eu ia com camisa do Santa Cruz. Então, assim, sempre estava encontrando com um ou outro tricolor", brinca.
Seja a 120, 800 ou 2 mil quilômetros de distância, as histórias mostram que "o amor pelo Santa Cruz não tem fronteiras", como disse Lia, e que essa união em prol do Tricolor virou uma forma de "criar laços, histórias e amizades que permanecem para a vida toda", como relata Rubbens.
"Hoje digo a você que o consulado me trouxe amigos, me trouxe parcerias", confidencia Gabriel.