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Náutico projeta 2026 pendurado nas receitas de 2027

Beto Lago

Publicado: 14/08/2026 às 09:10

Bruno Becker, presidente do Náutico/Rafael Vieira/CNC

Bruno Becker, presidente do Náutico (Rafael Vieira/CNC)

A conta que não fecha
O futebol moderno exige cada vez menos paixão cega e muito mais rigor com as planilhas. Quando a bola rola, o torcedor quer gol; mas quando o orçamento vai para a mesa do Conselho Deliberativo, a preocupação é não transformar o futuro do clube em um deserto financeiro. E os números apresentados por Rodrigo Kehrle, na rede social X (ex-Twitter) sobre o orçamento do Náutico para 2026 e antecipações acendem um sinal de alerta pedagógico sobre a saúde financeira do Timbu. À primeira vista, o quadro geral apresenta um aparente equilíbrio: receitas totais estimadas em R$ 53,2 milhões contra despesas na casa dos R$ 52,8 milhões. Um superávit projetado de pouco mais de R$ 400 mil. O problema não está na foto final, mas na forma como a imagem foi editada. Ao detalhar mês a mês o fluxo de caixa alvirrubro, fica evidente um severo déficit operacional estrutural. As despesas fixas do clube orbitam entre R$ 3,6 milhões e R$ 4,7 milhões mensais, impulsionadas por uma folha de pagamento e custos com pessoal que consomem mais de R$ 3 milhões a cada 30 dias. Por outro lado, o faturamento recorrente (sócio torcedor, bilheteria, patrocínios e loja) fica muito aquém dessa régua, rodando em torno de R$ 1 milhão a R$ 2,8 milhões no segundo semestre. Para "fechar a conta" e evitar o colapso de caixa nos meses finais do ano, a diretoria recorreu a uma engenharia financeira arriscada: a antecipação de receitas futuras.

Antecipar receitas
Nos dados da apresentação, ficou claro que o executivo do Náutico pretende antecipar cerca de R$ 5,85 milhões líquidos (R$ 1,62 milhão em setembro e R$ 4,21 milhões em outubro) referentes às cotas de participação da Copa do Nordeste e da Copa do Brasil de 2027. Somando a isso a projeção de mais R$ 8 milhões em "Outras Receitas" para novembro, chega-se a quase R$ 14 milhões em recursos extraordinários injetados no último quadrimestre.

Questionamentos importantes
Essa estratégia levanta alguns questionamentos centrais sob a ótica da gestão esportiva. Primeiro, ao adiantar verbas do próximo ano para quitar a folha de 2026, o clube garante o fôlego imediato, mas transfere o problema para a temporada seguinte. O Náutico começará 2027 com um buraco milionário em suas cotas de transmissão e premiação. Tem, também, o cálculo da antecipação toma como premissa metas esportivas ousadas em 2027: alcançar as quartas de final do Nordestão e avançar até a 4ª fase da Copa do Brasil. No futebol, projetar receitas com base em classificações futuras é sempre caminhar sobre um fio navalha.

Remédio amargo
Toda antecipação carrega deságio e taxas de juros (estimadas na planilha em 2,40%), consumindo recursos legítimos do clube no pagamento de intermediários e custos financeiros. Antecipar receitas para cobrir despesas de custeio corrente é um remédio amargo que o futebol pernambucano conhece bem e cujos efeitos colaterais costumam ser devastadores a longo prazo. Garantir competitividade em 2026 é imperativo, mas fazer isso hipotecando o planejamento do ano seguinte é repetir fórmulas do passado que custaram caro à memória e aos cofres dos nossos clubes.

E a conta chegou

O “novo” passivo trabalhista do Náutico ganha contornos cada vez mais preocupantes. Apenas em 32 processos trabalhistas, referentes ao período de 2024 até 8 de abril deste ano, o clube já acumula R$ 5.372.879,66 em ações judiciais. O dado chama ainda mais atenção porque esses processos estão fora da Recuperação Judicial. Ou seja, trata-se de uma conta que não está contemplada no processo de reestruturação das dívidas alvirrubras. A dívida antiga pode até estar sendo negociada. O problema é quando novas contas continuam sendo produzidas.

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