Pai vira motorista de aplicativo no Recife para realizar sonho do filho de ser goleiro nos EUA
Matheus Guerra, de 16 anos, conquistou uma bolsa de estudos na Flórida; para arcar com os custos de passagens e taxas, o pai, Wendel, enfrenta uma maratona diária
Até onde vai o esforço de um pai para realizar o sonho de um filho? Para transformar em realidade a conquista de uma bolsa de estudos de goleiro nos Estados Unidos, a resposta está no asfalto do Recife. Enquanto Matheus Guerra, de 16 anos, brilha debaixo das traves, o pai, Wendel Leite, de 45 anos, se divide entre corridas como motorista de aplicativo e o trabalho como autônomo para custear a passagem e pavimentar o caminho do filho.
“É muito cansativo e ‘puxado’, mas é gratificante, porque é a realização de um sonho”, explica Wendel.
No Nissan Kicks branco é onde Wendel passa seu tempo livre rodando pelas ruas do Recife para que a bolsa conquistada por Matheus em julho — durante um torneio em Sorocaba, em São Paulo, em que representou a PSG Academy do Recife — se concretize na ida para a Flórida, na DME Academy, uma instituição educacional e de treinamento esportivo de alto rendimento.
"Todo o esforço dele eu reconheço totalmente. Porque, desde o início, ele estava me apoiando, me incentivando, me criticando também quando eu cometia erros, mas, principalmente, ele estava lá em todos os momentos em que eu precisava", diz Matheus. "Tudo isso que ele tem investido em mim, eu sou totalmente grato e tenho certeza de que, no futuro, eu vou poder recompensar ele por isso", completa.
Para Wendel, a emoção e a felicidade pela conquista do filho vieram acompanhadas da preocupação com o desafio que tinha pela frente.
"Fiquei muito feliz, chorei, confesso, chorei, que é a realização de um sonho, não só eu como pai, mas também ele como filho e atleta. E eu fiquei muito feliz, e eu estou lutando por esse objetivo e eu vou conseguir para que ele possa realizar esse sonho dele", desabafa.
Wendel então foi atrás de métodos para viabilizar a travessia do Oceano Atlântico rumo às terras norte-americanas. Com tentativa sem sucesso de conseguir um patrocinador, o pai decidiu ser motorista de aplicativo.
"De manhã, eu deixo Matheus na escola e vou para o meu trabalho. Quando eu retorno, pego o Matheus e levo para o treino. Eu saio de casa às 6h30 da manhã e só retorno de 20h30. Então, assim, é muito cansativo, é puxado, mas é gratificante", resume o pai, sobre a maratona diária.
Apesar de a bolsa de estudos cobrir parte da ida de Matheus, os pais ainda têm que viabilizar outras despesas, como passagem, taxa de passaporte e seguro. Assim, entre ajudar o filho na rotina de estudos e treinos, o pai encontra tempo para circular pelas ruas da capital de Pernambuco.
Mirando alçar voos mais altos do que apenas os do goleiro na hora de agarrar uma bola no ângulo, Matheus enxerga a mudança como um divisor de águas.
"É uma oportunidade que, sinceramente, não poderia aparecer outras vezes. Vai ser muito vantajoso tanto para a minha vida pessoal quanto para a esportiva", explica o jovem.
Além da motivação e do incentivo quando está dentro de campo, o jovem goleiro explica que o pai ajuda justamente nos momentos em que a rotina de conciliar estudos e treinos começa a pesar.
"A rotina é muito difícil, principalmente no início. Eu estudava de manhã, ia direto para o trabalho [como jovem aprendiz] e, à noite, ainda tinha o treino. Era muito cansativo e a pressão me fez pensar em desistir do futebol, por achar que não aguentaria mais. Mas a motivação do meu pai me ajudava muito, ele me incentivava a continuar", conta Matheus.
O destino agora é a Flórida, mas as bases dessa conquista continuam nas ruas do Recife. Para Matheus Guerra, o gol nos Estados Unidos é apenas o primeiro capítulo de um voo que está só começando. Entre defesas no campo e quilômetros no asfalto, a história de Matheus e Wendel lembra que nenhum sonho grande se constrói sozinho.