Samir Xaud, presidente da CBF (Rafael Ribeiro / CBF)
Calote Institucional
Uma das tantas bombas que explodem no futebol brasileiro precisa ser desarmada pela CBF: a inadimplência entre os próprios clubes. O caso do Cuiabá é emblemático. O clube recebeu um transfer ban da Fifa por uma dívida de R$ 4 milhões com o ex-técnico Petit. Até aí, nada de extraordinário: dívida não paga gera punição. O problema começa quando se olha para o outro lado da história. O presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, revelou que o clube tem cerca de R$ 42 milhões a receber de outras equipes brasileiras. Apenas com Santos e Corinthians, o valor chega a R$ 30 milhões. É uma situação que beira o absurdo. O clube que não paga uma dívida é punido pela Fifa, mas aquele que deve milhões a outros clubes continua podendo contratar, registrar jogadores e montar elencos como se nada estivesse acontecendo. É o famoso “devo, não nego, contrato quando puder”. E, no futebol brasileiro, aparentemente, ainda pode contratar antes de pagar. Dresch classificou o sistema como “sem mérito”. E tem razão. Não se trata de defender o Cuiabá ou qualquer outro clube. Se um clube não honra uma negociação, não deveria ter o mesmo poder de contratação daquele que mantém suas obrigações em dia. O futebol brasileiro criou uma espécie de paradoxo financeiro. Clubes acumulam dívidas que chegam à casa do bilhão de reais, negociam jogadores por valores milionários, aumentam suas folhas salariais e continuam no mercado. Enquanto isso, quem tem dinheiro a receber precisa recorrer à Justiça, à CNRD, à Fifa ou a outros mecanismos para tentar recuperar aquilo que deveria ter sido pago espontaneamente. É um sistema que premia o devedor e pune o credor.
Problema de governança
A CBF não pode continuar tratando isso como um problema exclusivamente entre clubes. É um problema de governança do futebol brasileiro. O próximo Arbitral precisa colocar o tema no centro da mesa. Quem tiver dívida vencida com outro clube brasileiro precisa apresentar um plano de quitação, cumprir prazos e sofrer restrições esportivas em caso de descumprimento. Não é razoável exigir responsabilidade financeira de uns e fechar os olhos para outros.
Velha cultura do calote
Fair play financeiro não é uma expressão bonita em regulamento. Precisa valer para todos. Se o futebol brasileiro quer ser profissional, precisa começar por uma regra elementar: não pode contratar quem não paga. A CBF tem a oportunidade de transformar essa velha cultura do calote em uma nova cultura de responsabilidade. Basta coragem para desarmar essa bomba.
Liga Social Joga Pra Elas
Cerca de 400 meninas, entre 10 e 18 anos, de diferentes regiões de Pernambuco, incluindo indígenas e quilombolas, participam da Liga Social Joga Pra Elas, que acontece de 17 a 20 de setembro, no Centro Esportivo Santos Dumont, no Recife. A iniciativa reúne Love.fútbol, Common Goal, Pazear e Geração 4, instituições com atuação em projetos sociais e no uso do esporte como ferramenta de transformação.