Esportes

Por que a Educação Física não pode ser apenas teoria?

Beto Lago

Publicado: 05/08/2026 às 07:30

O corpo também aprende
Há debates que nunca deveriam sair da pauta. Um deles é o espaço da Educação Física dentro das escolas brasileiras. Em uma época em que o sedentarismo avança, a obesidade infantil cresce e os transtornos ligados à saúde mental preocupam cada vez mais especialistas, ainda convivemos com uma realidade difícil de explicar: transformar uma disciplina feita para o movimento em aulas quase exclusivamente teóricas. Quem faz esse alerta há décadas é o professor Aldemir Teles, o Dema, uma das maiores referências da Educação Física em Pernambuco e no Brasil. Defensor incansável da integração entre educação e esporte, ele sustenta que o País continuará desperdiçando talentos e formando gerações menos saudáveis enquanto tratar a atividade física como um componente secundário da formação escolar. A Base Nacional Comum Curricular reconhece a importância da Educação Física, mas a prática está longe do que prevê o documento. Em muitas escolas, o tempo destinado às atividades corporais diminuiu, as aulas práticas perderam espaço e, em alguns casos, a disciplina passou a existir muito mais no caderno do que na quadra. É uma inversão de valores. A Educação Física não foi criada para ensinar apenas conceitos. Ela existe para desenvolver coordenação motora, socialização, disciplina, consciência corporal e hábitos saudáveis. O movimento faz parte do processo educativo.

Letramento motor:

O professor Dema chama atenção para outro aspecto pouco discutido: o letramento motor. Se a escola é responsável por universalizar o ensino da leitura, da escrita e da matemática, também deveria garantir que toda criança aprendesse a se movimentar com qualidade, compreendesse a importância da atividade física e incorporasse esse hábito para a vida inteira. A própria ciência reforça essa necessidade. A neurociência demonstra que a prática regular de exercícios melhora a aprendizagem, favorece a memória, estimula a neuroplasticidade, reduz o estresse e contribui para a saúde mental.

Formar o atleta e o cidadão:

Não se trata apenas de formar atletas. Trata-se de formar cidadãos. O desafio passa também pela valorização dos profissionais, pela atualização permanente dos métodos de ensino e por investimentos em infraestrutura. Sem quadras adequadas, materiais e carga horária compatível, qualquer proposta pedagógica perde força.

Educar é ensinar a pensar e a viver:

A reflexão proposta pelo professor Dema vai além do esporte. Ela questiona o modelo de educação que estamos construindo. Se a escola tem como missão formar o indivíduo integralmente, não faz sentido desenvolver apenas a mente e abandonar o corpo. Ignorar essa realidade talvez seja um dos maiores equívocos da educação brasileira. Porque, no fim das contas, educar é ensinar a pensar. Mas também é ensinar a viver. E viver passa, necessariamente, pelo movimento.

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