Choro dos craques: ciência explica impacto do psicológico no futebol
Especialistas explicam como a pressão por resultados e o esgotamento físico transformam craques mundiais em seres humanos vulneráveis na Copa do Mundo
Publicado: 26/07/2026 às 06:00
Choro dos craques ciência explica impacto do psicológico no futebol. (Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)
O esforço físico extremo e a competitividade da Copa do Mundo cobram o seu preço em forma de lágrimas. Além de grandes momentos vividos na Copa do Mundo, estrelas como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar atingiram o limite emocional ao experienciar frustrações no maior palco do futebol mundial.
No último domingo (19), ao ser derrotado pela Espanha por 1 a 0 na final da Copa do Mundo, o argentino Lionel Messi parecia não reagir. Ao receber a medalha de prata, no entanto, o camisa 10 da Albiceleste caiu em lágrimas no que, provavelmente, foi seu último jogo e Mundial com a camisa do seu país.
A ciência do choro
Ao exporem o choro - seja nas vitórias ou nas derrotas do torneio -, astros ilustram na prática como a carga psicológica extrema afeta o comportamento humano por trás do uniforme. No fim das contas, a lição que fica é que os atletas são, inevitavelmente, humanos.
"Antes de analisarmos o perfil comportamental de jogadores de alta performance, precisamos lembrar que, antes de vestirem o uniforme dos seus países, eles são seres humanos. E seres humanos são seres de emoções", pontua Marjorry Calumby, psicóloga esportiva e neuropsicóloga do Santa Cruz Futebol Clube.
Marjorry Calumby também explica que o choro é uma forma de os jogadores expressarem essas emoções.
"O choro é uma forma de externar, de colocar para fora o que estava gritando por dentro. A gente se comunica pela fala e também pelo choro. Quando estamos em um momento muito ansioso e estressante, a gente chora, e isso alivia", acrescenta.
Além disso, Rosângela Vieira, psicólogado futebol profissional masculino do Sport, afirma que essa reação vem associada a uma sensação de alívio.
"O choro é uma expressão fisiológica de alguma emoção negativa ou positiva. Quando isso acontece, ocorre uma descarga emocional para fora do corpo, promovendo uma sensação de alívio", detalha a especialista.
A pressão do pênalti
Mas nem sempre a carga emocional encontra o choro como válvula de escape. Em situações de extremo estresse, como uma cobrança de pênalti decisiva em um Mundial, o peso do cenário costuma se sobrepor à técnica. Segundo as especialistas, a falha nessas situações raramente está ligada à falta de fundamento ou treinamento.
"Por que um jogador perde um pênalti? Se o fundamento é técnico, ele treina e repete à exaustão. Ele erra porque, naquele período curtíssimo de tempo, a carga emocional é muito maior. Ele tem medo de falhar e antecipa o problema. A pressão é gigantesca: a torcida no estádio, a imprensa, a cobrança e o próprio sonho em jogo", analisa Marjorry Calumby.
Esse desequilíbrio também impacta diretamente o tempo de reação, visto que, como Rosângela Vieira lembra, as tomadas de decisão no futebol ocorrem em frações de segundo.
"Se durante uma competição de curto a médio prazo, o atleta entra em desequilíbrio, isso pode desencadear uma oscilação no rendimento. Para que um time ganhe um jogo, existem pelo menos 20 variáveis envolvidas que precisam estar reguladas, como a técnica, a física, a mental e até o sono", complementa.
Violência como sintoma
Quando as variáveis citadas entram em colapso e as emoções não são bem reguladas, o resultado prático culmina na agressividade.
A frustração se transforma em faltas duras e discussões. Foi o caso, por exemplo, de Leandro Paredes, que agrediu o espanhol Gavi após o apito final na decisão da Copa.
"Caso o atleta não faça alguma técnica mental de controle, ele pode se envolver em brigas, xingamentos e agressões físicas", adverte a psicóloga do Sport.
Para Marjorry Calumby, a violência dentro de campo expõe a ausência de inteligência emocional para lidar com a adversidade e resultados negativos. Ela ressalta, no entanto, que essa responsabilidade não recai apenas sobre os jogadores e o comportamento da comissão técnica corre o risco de influenciar negativamente os atletas.
"A comissão é o espelho e a referência do grupo. Se a liderança já é estressada e resolve tudo no grito, na agressividade, quem está abaixo vai se inspirar nessa postura. Nós somos o reflexo do ambiente em que estamos inseridos", analisa Marjorry.
A capacidade de "zerar" a mente
Para evitar que estrelas sucumbam à pressão, o trabalho psicológico no futebol de alto nível deve focar na rápida recuperação cognitiva e, como destrincha Marjorry, a capacidade de "zerar" a mente.
"Se o jogador falha, ele precisa 'zerar' para voltar a se concentrar. Caso contrário, vai remoer e acabar errando novamente. É preciso fortalecer o atleta para que ele entenda: 'Fui muito bem/mal nesta partida, agora é zerar e concentrar novamente'", explica Marjorry, citando técnicas como controle de ansiedade e visualização mental.
Para que o atleta não vá de herói a vilão em um curto espaço de tempo, Rosângela pontua a constância como um fator inegociável.
"O treino mental deve ser constante, planejado e periodizado nos clubes, federações ou confederações. Trabalhamos nos períodos pré-competitivos, competitivos e pós-competitivos", arremata Rosângela Vieira.
No fim, seja em uma cobrança de pênalti isolada ou na cerimônia de entrega de medalhas da Copa do Mundo, a bola rola não apenas nos pés, mas na mente de quem a conduz. O choro, a raiva ou a frieza são, acima de tudo, o atestado de que as máquinas de bater recordes ainda são seres humanos.