Coluna Além da Bola: Clássico de disparidades
Muitos números envolvem o confronto entre o time do super-astro luso Cristiano Ronaldo e os representantes africanos
O estádio de Houston, no Texas, nos Estados Unidos, será hoje palco de um jogo que, certamente, entrará para a história das Copas do Mundo. Não só pela questão simples do futebol. Portugal X República Democrática do Congo é um “clássico de disparidades”.
Muitos números envolvem o confronto entre o time do super-astro luso Cristiano Ronaldo e os representantes africanos, que chegam para cumprir tabela. De um lado, está um dos favoritos ao título.
E as cifras não mentem jamais. O meio-campo dos “patrícios” tem tudo para deslanchar. Vitinha e João Neves integram realmente o que se pode chamar de quadrado mágico, com Bernardo Silva e Bruno Fernandes.
E vem a melhor parte de todas: Cristiano Ronaldo. Com 41 anos e um físico de “menino”, ele vai se despedir dos mundiais, após seis participações e uma história de dar inveja.
Ele não é um ET, como foram um dia Pelé e Maradona, ou é hoje Lionel Messi. Mas sempre se destacou como um grande atleta. Uma máquina de fazer gols. Não é à toa que busca o milésimo. E, pelo andar da carruagem, parece, agora, que é uma questão de tempo.
Só que a “questão CR7” vai mais além de músculos e carisma. O cara é marco de uma era no esporte.
Jogador mais bem pago da atualidade, Ronaldo é o primeiro bilionário do mundo da bola.
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O patrimônio do “gajo” é estimado em US$ 1,4 bilhão (mais de R$ 7 bilhões). Isso o levou a ser o “primeiro jogador” incluído na lista dos mega-ricos da Bloomberg, em 2025.
E o atacante também sabe fazer o “marketing do bem”. Um dia desses, o luso prometeu enviar, do seu próprio bolso, US$ 2 milhões para crianças da Faixa de Gaza.
Cifras lusitanas à parte, do outro lado estarão jogadores que saíram de seu país em meio a uma crise do vírus ebola e um mundo de problemas. Um dos países mais pobres do mundo, a República do Congo tem reservas de diamantes capazes de tirar a população da lama, mas isso nunca aconteceu.
A situação por lá é tão complicada que são frequentes os anúncios de envio de ajuda humanitária. No ano passado, a União Europeia prometeu mandar R$ 100 milhões de euros (o que equivale a quase R$ 600 milhões) para a nação africana, prevendo um socorro a cerca de 20 milhões de pessoas e outras tantas deslocadas de forma forçada.
Dentro do campo, o jogador mais conhecido da equipe é o defensor Aaron Wan-Bissaka, que encerrou a última temporada pelo rebaixado West Ham United, na Premier League, da Inglaterra. O valor de mercado dele ficou em 15 milhões de euros.
E é bom lembrar que a República do Congo entra na Copa de 2026 como “estreante”. No entanto, vale explicar essas aspas. É que, em 1974, na Copa da Alemanha, a nação africana participou como Zaire e caiu na primeira fase no grupo do Brasil.
Há 52 anos, o país era comandado pelo ditador insano Mobutu Sese Seko. Um general que tentava “limpar a imagem” usando o futebol. Os caras levaram uma pisa de 9 X 0 da Iugoslávia (que também não existe mais).
Assim, chegaram assustados para o terceiro e derradeiro confronto com a “Canarinho”, que vinha do tri, quatro anos antes, no México. Com a aposentadoria do Rei Pelé, Jairzinho e Rivellino tentavam o Tetra em solo germânico, com Zagallo fazendo o papel de treinador, mais uma vez.
Ganhamos de 3x0, com direito a um “frangaço” do goleiro africano. Só que, naquele fatídico dia, em Gelsenkirchen, outra cena entrou para os “melhores momentos”. Faltando 12 minutos para o fim do jogo, um atleta do então Zaire deu uma “bicuda” e isolou a bola, antes de uma cobrança de falta para o Brasil, e sem o apito do juiz.
Durante anos, ficou a versão fantasiosa divulgada pela mídia de que “o cara não sabia as regras” do jogo.
Na verdade, era medo. Medo de que o Brasil fizesse o quarto gol e fosse cumprida a ameaça do ditador, antes da partida.
Mobutu disse que, se os atletas levassem mais de quatro gols do Brasil, não voltariam “vivos” para casa.
Mais de um século se passou, o mundo mudou (nem tanto) e o futebol é outro.
As disparidades financeiras entre CR7 e seus companheiros e os nobres adversários do Congo estão estampadas, mas estão “dentro das quatro linhas do jogo”. É bom saber que tudo deve se decidir apenas no campo de futebol.