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Abertura da Copa sob tensão: protestos e crise diplomática ofuscam clima de festa

Geopolítica e protestos sufocam clima de festa a dois dias da abertura da Copa do Mundo

Por Paulo Mota

Protestos no México

Faltando apenas 48 horas para o início da Copa do Mundo de 2026, os holofotes globais dividem-se à força entre o brilho do futebol e as tensões políticas que cercam os países-sedes. Longe do clima de celebração esperado para o maior torneio do planeta, a contagem regressiva é marcada por avenidas bloqueadas na Cidade do México, uma rotina de confinamento logístico para a seleção do Irã e o veto severo de vistos por parte das autoridades dos Estados Unidos.

Caos na capital mexicana põe abertura em xeque
No México, o palco da grande partida de abertura, o histórico Estádio Azteca, virou o epicentro de uma crise de mobilidade. Desde a última segunda-feira (1), uma forte onda de protestos liderada por profissionais da educação tomou as principais artérias da capital. Os professores reivindicam reajustes salariais e mudanças nas regras de aposentadoria da categoria.

Com acampamentos montados em pontos estratégicos e bloqueios em corredores viários fundamentais, o trânsito na Cidade do México vive um caos. O governo local corre contra o tempo para desenhar rotas alternativas de segurança para delegações da Fifa, chefes de Estado e torcedores, temendo que os protestos impactem diretamente o acesso ao estádio na quinta-feira (11).

O vaivém do Irã e o bloqueio de ingressos
Se no México o problema é o deslocamento terrestre, nos Estados Unidos a barreira é diplomática. Em meio às tensões com o governo de Teerã, a seleção do Irã enfrentará uma logística inédita e desgastante. Os 26 jogadores convocados receberam autorização de entrada temporária em solo americano apenas para jogar, os pernoites foram expressamente proibidos.

Na prática, a delegação iraniana será obrigada a cruzar a fronteira após cada compromisso, utilizando a cidade mexicana de Tijuana como base operacional de repouso. Para agravar o isolamento da equipe, a Federação de Futebol do Irã (FFIRI) denunciou que a cota de 8% de ingressos destinada aos seus torcedores foi sumariamente confiscada pelas autoridades americanas.

Interrogatório e deportação nos aeroportos americanos
O rigor das fronteiras dos EUA também deixou marcas em um dos grandes personagens asiáticos do torneio. O atacante Aymen Hussein, considerado herói nacional no Iraque após marcar o gol que encerrou um jejum de 40 anos do país longe dos Mundiais, foi retido na imigração ao desembarcar em Chicago. Hussein foi submetido a um exaustivo interrogatório de sete horas pelas autoridades de segurança antes de ter sua liberação concedida para se juntar aos companheiros de equipe.

O desfecho foi ainda pior para a arbitragem africana. Omar Artan, eleito o melhor árbitro masculino da CAF (Confederação Africana de Futebol) em 2025, foi impedido de entrar nos EUA ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Miami.

Natural da Somália, Artan teve o sonho de se tornar o primeiro de seu país a apitar uma Copa do Mundo interrompido pela política de restrição de viagens estabelecida pelo governo de Donald Trump. Sem explicações oficiais detalhadas da imigração, o juiz foi obrigado a deixar o continente e encontra-se atualmente na Turquia, fora da lista do torneio.

A dois dias do pontapé inicial, o desafio da Fifa e dos comitês organizadores vai muito além das quatro linhas: tentar resgatar o espírito esportivo de um evento que, antes mesmo de começar, já se desenha como um dos mais politizados e tensos da história.