Copa do Mundo
ARTIGO

Gilberto Freyre, Leônidas, Pelé, e o que nos une

A memória nos lembra e muitas vezes nos extasia

Roberto Gazzi

Publicado: 13/06/2026 às 09:01

Seleção de 1938 e o artigo de Gilberto Freyre publicado no Diario/AFP e Diario de Pernambuco

Seleção de 1938 e o artigo de Gilberto Freyre publicado no Diario (AFP e Diario de Pernambuco)

“O estylo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dansa dyonisiaca”. Uau! A frase final do artigo de Gilberto Freyre no Diario de Pernambuco de 17 de junho de 1938, durante a Copa da Itália, é profética. Era inspirada nas atuações de Leônidas da Silva, o ‘Diamante Negro’ no torneio do qual sairia artilheiro. E era genial, premonitora.

Freyre intuía, preconizava, descrevia o que aconteceria exatamente 20 anos depois, em 1958, na Copa da Suécia. O gol de um negro novinho, de 18 anos, que no jogo final da Copa recebe a bola na área, domina dando um chapéu no zagueiro e sem deixá-la cair no gramado toca de primeira, tocando no canto do goleiro. Golaço! Uma dança dionisíaca num estádio da Europa branquela, consolidando a vitória de 5 a 2 do primeiro título mundial do Brasil mulato.

E que privilégio meu e teu, leitor, poder ler este texto quase centenário do mestre Freyre publicado no bicentenário DP. A memória nos lembra e muitas vezes nos extasia. Viva Gilberto Freyre, Leônidas da Silva, Pelé, o Diario de Pernambuco e tudo o que nos une.

 Leia o artigo 'Foot-ball Mulato', de Gilberto Freyre

Um reporter me perguntou ante-hontem o que eu achava das admiráveis performances brasileiras nos campos de Straburgo e Bordeaux.

Respondi ao reporter — que depois inventou ter conversado comigo em plena praça pública, entre os solavancos da multidão patriótica na própria tarde da vitória dos brasileiros contra os tchecoslovacos — que uma das condições dos nossos triumphos, este anno, me parecia a coragem, que afinal tiveramos completa, de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas grande numero, pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros.

Porque a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por algum tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor-todo-poderoso do Itamaraty: nada de pretos nem de mulatos chapados; só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos ou, quando muito caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro. Mulatos do typo do illustre Domício da Gama a quem o Eça de Queiroz costumava chamar, na intimidade, “mulato côr-de-rosa”.

Morto Rio Branco, desapareceria o critério anti-brasileiro do Brasil se fingir de República de aryanos perante os estrangeiros distantes que só nos conhecessem através de ministros ruivos ou de secretários de legação de olhos azues. E de tal modo desapareceria o falso e injusto critério da selecção de louros que o próprio Barão seria substituído no Itamaraty por mulatos illustres — um delles o grande brasileiro que foi Nilo Peçanha.

Nilo Peçanha... Assistindo, também ante-hontem, à fita que reproduz o jogo dos brasileiros contra os polonezes, foi de quem me lembrei — de Nilo Peçanha. Porque o nosso estylo de foot-ball lembra o seu estylo político.

O nosso estylo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astucia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor affirmação na arte política.

Os nossos passes, os nossos pitu’s, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, alguma coisa de dança e de capoeiragem que marca o estylo brasileiro de jogar foot-ball, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos inglezes e por elles e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para os psychologos e os sociologos o mulatismo flamboyant e ao mesmo tempo malandro que está hoje em tudo que é affirmação verdadeira do Brasil.

Acaba de se definir de maneira inconfundível um estylo brasileiro de foot-ball; e esse estylo é mais uma expressão do nosso mulatismo agil em assimilar, dominar, amollecer em dança, em curvas ou em musicas technicas europeias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto: sejam ellas de jogo ou de architectura. Porque é um mulatismo, o nosso — psychologicamente, ser brasileiro é ser mulato — inimigo do formalismo apollineo — para usarmos com alguma pedanteria a classificação de Spengler — e dyonisiaco a seu geito — o grande geito mulato.

Inimigo do formalismo apollineo e amigo das variações; deliciando-se em manhas molleronas, mineiras a que se succedem surpresas de agilidade. A arte do songa-monga. Uma arte que não se abandona nunca à disciplina do methodo scientifico mas procura reunir ao sufficiente de combinação de esforços e de effeitos em massa a liberdade para a variação, para o floreio, para o improviso. Até mesmo a liberdade para a ostentação ou para a exibição de talento individual num jogo de que os europeus têm procurado eliminar quasi todo o floreio artístico, quasi toda a variação individual, quasi toda a espontaneidade pessoal para accentuar a beleza dos effeitos geometricos e a pureza de technica scientifica.

Sente-se nesse contraste o choque do mulatismo brasileiro com o aryanismo europeu. É claro que mulatismo e aryanismo considerados não como expressões éthnicas mas como expressões psycho-sociaes condicionadas por influencias de tempo e de espaço sociaes.

O contraste pode ser alongado: o nosso foot-ball mulato, com seus floreios artísticos, cuja eficiência — menos na defesa que no ataque — ficou demonstrada brilhantemente nos encontros deste anno com os polonezes e os tchecoslovacos, é uma expressão de nossa formação social democrática como nenhuma.

Rebelde a excessos de ordenação interna e externa; a excessos de uniformisação e geometrisação, de standardização; a totalitarismos que façam desaparecer a variação individual ou espontaneidade pessoal.

No foot-ball como na política, o mulatismo brasileiro se faz marcar por um gosto de flexão, de surpresa, de floreio que lembra passos de dança e de capoeiragem. Mas sobretudo de dança. Dança dyonisiaca. Dança que permitte o improviso, a diversidade, a espontaneidade individual. Dança lyrica.

Enquanto o foot-ball europeu é uma expressão apollinea — no sentido do spengleriano — de methodo scientifico e de sport socialista em que a pessoa humana resulta mechanisada e subordinada ao todo — o brasileiro é uma forma de dança, em que a pessoa humana se destaca e brilha.

O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas, arredondados e graças de dança. Foi precisamente o que sentiu o chronista europeu que chamou os jogadores brasileiros de “bailarinos da bola”. Nós dançamos com a bola.

Havelock Ellis — que o meu amigo Agrippino Grieco não lê porque supõe um simples Mantegazza inglez, quando Ellis é, na verdade, um dos pensadores mais lúcidos e um dos humanistas mais completos do nosso tempo — si visse o team brasileiro jogar foot-ball acrescentaria talvez um capítulo ao seu ensaio magnífico sobre a dança e a vida.

O estylo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dyonisiaca.

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