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Vênus tem um dia mais longo que o próprio ano: entenda como o planeta leva mais tempo para girar em torno de si do que para dar a volta no Sol

Por Thiago Stormovski
10/10/2026
Vênus longo próprio ano entenda

Imagem gerada por inteligência artificial

Vênus guarda uma excentricidade que nenhum outro vizinho do Sistema Solar reproduz: o planeta demora cerca de 243 dias terrestres para completar uma volta sobre o próprio eixo. Mas conclui sua órbita ao redor do Sol em apenas 225 dias.

Na prática, isso quer dizer que um único giro do planeta sobre si mesmo é mais demorado do que o próprio ano venusiano. A causa principal é a velocidade quase parada com que o planeta gira, somada a um detalhe ainda mais incomum: o sentido do movimento é invertido em relação à maioria dos planetas.

Esse giro ao contrário tem nome técnico — rotação retrógrada — e muda completamente a lógica do dia e da noite por lá.

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Um Sol que nasce do lado errado

Quem estivesse na superfície veria o Sol surgir no oeste e desaparecer no leste, movimento oposto ao que qualquer pessoa na Terra está acostumada a enxergar. Essa inversão não é só um detalhe visual: ela reorganiza inteiramente a forma como o tempo se desenrola no planeta.

Urano é o único outro planeta do Sistema Solar que também apresenta esse tipo de rotação invertida, o que torna Vênus e Urano uma dupla rara nesse quesito. Nos dois casos, o giro contrário gera efeitos pouco intuitivos sobre a contagem dos dias e das estações.


Três relógios diferentes para o mesmo planeta

Para medir o tempo em outros mundos, astrônomos recorrem ao conceito de dia sideral: o período que um corpo celeste leva para girar uma vez completa em relação às estrelas distantes. Em Vênus, esse valor soma os já mencionados 243 dias terrestres, enquanto a órbita solar fecha o ciclo em 225 dias.

Há ainda uma terceira forma de contar o tempo, mais próxima do que um habitante perceberia olhando para o céu: o intervalo entre dois nasceres do Sol.

Esse período, batizado de dia solar, resulta da combinação entre o giro lento e retrógrado do planeta com seu deslocamento ao redor da estrela. E totaliza aproximadamente 117 dias terrestres — um amanhecer dura cerca de 58,5 dias, seguido por outros 58,5 dias de escuridão completa.

A atmosfera que segura essa rotação

Cientistas do IAG-USP sugerem que a rotação retrógrada de Vênus pode ser resultado da combinação entre marés gravitacionais e efeitos térmicos na atmosfera do planeta, sem depender de colisões externas para existir. Segundo esse raciocínio, a camada atmosférica densa que envolve Vênus seria essencial para sustentar esse comportamento ao longo do tempo.

Sem essa atmosfera, o planeta tenderia a voltar à rotação direta — a mesma direção da maioria dos corpos do Sistema Solar — em um intervalo inferior a um milhão de anos. Esse detalhe reforça que o giro ao contrário não é apenas herança do passado distante, mas também depende de condições atuais para se manter.

Marés atmosféricas entram na equação

Uma possibilidade investigada recorre às marés atmosféricas, movimentos de ar provocados pelo aquecimento desigual da luz solar sobre diferentes regiões do planeta. Um estudo publicado na revista Nature em 1978 defendeu que essas marés são capazes de gerar torque, força que consegue alterar velocidade e sentido de rotação de um planeta inteiro.

Esse efeito poderia neutralizar as marés gravitacionais causadas pela atração do Sol, o que ajudaria a justificar a lentidão observada hoje. Estudos publicados no periódico Icarus aprofundaram justamente essa relação entre marés atmosféricas e gravitacionais, mostrando como os dois fenômenos podem ter atuado em conjunto durante bilhões de anos.

Grandes impactos também são cogitados

Outra linha de pesquisa aposta em colisões violentas ocorridas durante a formação do planeta, época em que corpos rochosos do Sistema Solar enfrentavam choques frequentes com objetos de grande porte. Um desses impactos teria capacidade de alterar de forma brusca a velocidade ou o sentido da rotação original de Vênus.

Essa hipótese, porém, segue sem comprovação definitiva como causa isolada do fenômeno. O cenário mais aceito combina diferentes forças atuando simultaneamente: atmosfera, gravidade solar e, possivelmente, impactos antigos moldaram juntos o giro invertido que caracteriza Vênus até os dias de hoje.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Thiago Stormovski

Thiago Stormovski

Jornalista formado na Uninter

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