Um pai de 31 anos em Derry. Na Irlanda do Norte, chegou a fazer apostas através de 40 contas diferentes em plataformas de apostas online e transformou o futebol em uma atividade inseparável do jogo. Ao pesquisador Darragh McGee, da Universidade de Bath, ele revelou que perdeu dinheiro destinado às férias da família em apostas.
Para cobrir as perdas, ele recorreu a empréstimos com juros altos e, na tentativa de recuperar o dinheiro das férias, envolveu-se com o tráfico de drogas por um período. Financiada pela British Academy, a pesquisa de McGee acompanhou durante dois anos torcedores de futebol de 18 a 35 anos em Bristol e Derry.
O estudo documentou como as casas de apostas associaram a paixão pelo esporte à compulsão por apostar e registrou consequências graves para muitos participantes.
O crescimento das apostas no futebol
A expansão do marketing e do patrocínio de empresas de apostas no futebol começou após a desregulamentação do setor, em 2005, pelo governo trabalhista da época. Combinada à facilidade de acesso às plataformas online pelo smartphone, essa expansão resultou no que McGee chama de gamificação da experiência de assistir futebol.
Hoje, as apostas estão integradas em cada momento do jogo, desde o resultado final até detalhes como número de escanteios, lançamentos laterais ou cartões amarelos. Segundo McGee, os participantes disseram que as estratégias das casas de apostas são eficazes, sobretudo as ofertas de apostas gratuitas ou combinadas.
Para muitos, as perdas parecem menos reais porque as apostas são feitas casualmente pelo telefone, sem a necessidade de frequentar uma casa de apostas física. Um dos entrevistados mencionou ter até 25 contas diferentes em plataformas de apostas online.
A experiência de apostar é comparada a sensações intensas. Um participante relatou ao The Guardian através de McGee que o “buzz” das apostas está “tão em cima quanto sexo, drogas e rock’n’roll”, acrescentando que considera as apostas a pior das dependências.
Impactos devastadores nas vidas dos jovens
O pai de 31 anos disse a McGee que estava endividado por causa de empréstimos com juros altos, contraídos para cobrir perdas acumuladas, e que tinha o crédito bloqueado. Relatou que fazia apostas continuamente no laptop durante todo o dia enquanto cuidava da filha, negligenciando-a. Disse que as apostas tomaram conta de sua vida e expressou profundo remorso.
Também mencionou ter perdido dois amigos para o suicídio, um deles diretamente ligado a dívidas de apostas. A pesquisa documentou histórias de vários jovens cuja vida cotidiana foi marcada por instabilidade financeira e social crescente. Dificuldades para encontrar oportunidades viáveis de emprego, inadimplência hipotecária, ruptura familiar e problemas de saúde mental, além de empréstimos com juros altos e dívidas bancárias.
McGee identificou que, para muitos desses homens, sobretudo os que não têm caminhos viáveis para conseguir emprego, as apostas oferecem uma promessa alternativa de riqueza, capital social e afirmação masculina. A maioria, porém, acaba presa em um ciclo de endividamento.
Consequências que vão além das finanças e medidas regulatórias
Derry, como outras áreas da Irlanda do Norte, registra algumas das maiores taxas de suicídio da Grã-Bretanha. O dado torna o achado especialmente preocupante para a região.
Embora as casas de apostas apresentem suas plataformas como atividades baseadas em conhecimento e livres de risco. McGee concluiu que as apostas esportivas online não são isentas de riscos e tiveram consequências graves para muitos jovens homens.
McGee apontou que as medidas voluntárias anunciadas pelas casas de apostas — como o banimento de publicidade televisiva durante jogos ao vivo. Exceto corridas de cavalos — são um passo na direção certa. Alertou, porém, que uma geração inteira de jovens já normaliza as apostas como parte inseparável do futebol.
Segundo McGee, reverter esse quadro exigirá regulação estatal mais rigorosa, compromisso genuíno de destinar uma parcela maior das perdas de apostadores britânicos à educação. E ao tratamento da dependência, além de informar a próxima geração sobre os perigos.
Seu trabalho será publicado academicamente em breve e está entre os estudos mais aprofundados sobre como a cultura de apostas online se enraizou no futebol e afeta gerações inteiras.










