Pesquisadores brasileiros realizaram uma pesquisa em Fernando de Noronha, ilha localizada no estado de Pernambuco para investigar se os polvos são seres sencientes — capazes de sentir sensações e emoções. O estudo aplica ao ambiente natural descobertas feitas em laboratórios na Inglaterra e busca comprovar se esses animais têm vida emocional além do que se imaginava.
Essa mudança de perspectiva científica é recente. Pesquisas indicam que invertebrados como os polvos conseguem sentir dor e guardar memória, contrariando a crença anterior de que não tinham essas capacidades.
“Se a gente conseguir comprovar em ambiente natural que o polvo possui senciência, será a primeira vez que a gente vai revelar para o mundo as emoções internas desse animal”, declara Tatiana Silva Leite, professora da Universidade Federal de Santa Catarina que coordena o trabalho.
Duas décadas observando polvos em Noronha
A limpidez da água, que facilita a observação dos comportamentos, levou a equipe a escolher o arquipélago pernambucano para a ocasião.
Tatiana Silva Leite pesquisa os polvos na região há mais 20 anos e descobriu a espécie Octopus insularis, que apresenta comportamento diurno. O trabalho conta com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e deve durar quatro anos.
Como os testes revelam emoções
A equipe usa três cenários filmados sem manipular o animal. Um boneco de moreia em 3D avalia a reação do polvo à possibilidade de ser atacado, enquanto um boneco de siri — que faz parte da cadeia alimentar do polvo — testa emoção positiva.
Objetos desconhecidos geram resposta neutra, e os resultados iniciais mostram variações claras de personalidade entre indivíduos. A bióloga Michaella Andrade, estudante de doutorado da UFABC, explica que alguns animais são mais ousados e têm menos medo, enquanto outros são mais tímidos. Essa diversidade comportamental sugere que cada polvo desenvolve características próprias, como uma personalidade individual.
Cores revelam estados emocionais
A mudança de coloração é o indicador mais visível das emoções. Polvos tímidos ficam mais pálidos durante momentos de medo e adotam postura de braços abertos para afugentar ameaças. Em brigas, o animal que ataca fica mais escuro que o rival.
A espécie estudada possui células com pigmentos que produzem cinco cores: preto, branco, laranja, amarelo e vermelho, além de refletir a cor do ambiente — uma variedade enorme. Quando estressado, o polvo expele tinta como estratégia de fuga — o predador persegue a nuvem enquanto o animal se afasta para o lado oposto.
Essa capacidade de se camuflar e enganar predadores revela sofisticação comportamental que complementa sua vida emocional. Algumas espécies, como o polvo-véu, apresentam dimorfismo sexual extremo: as fêmeas chegam a 2 metros de comprimento, enquanto os machos medem apenas 2,4 centímetros. Essa diferença adiciona complexidade aos estudos sobre comportamento.
Em cativeiro, dados documentam que polvos sob estresse severo apresentam casos de automutilação, evidência adicional de capacidade emocional profunda.










