O ex-presidente da República, Getúlio Vargas é um dos nomes que mais divide as opiniões quando o assunto é a história do Brasil. Especialistas consultados reconhecem sua importância, embora seu legado ainda divida pesquisadores 80 anos depois de seu governo, e sua influência continua presente na política nacional.
Vargas governou o país por quase duas décadas, somando suas duas passagens pelo poder. A primeira delas entre 1930 e 1945, quando estabeleceu o Estado Novo em 1937, e a segunda de 1951 a 1954. Ele deixou marcas que atravessam gerações: políticas trabalhistas, empresas estatais e um modo de fazer política nacional.
Trabalhadores brasileiros ainda lidam no dia a dia com normas herdadas da Consolidação das Leis do Trabalho, criada durante esse período. A existência da Petrobras e da Ordem dos Advogados do Brasil também remonta à Era Vargas.
A Revolução e a modernização industrial
A Revolução de 1930 o colocou como presidente provisório prometendo modernizar a indústria brasileira e corrigir falhas da República Velha, regime que havia deposto Washington Luís. Mulheres passaram a votar e o sigilo nas urnas virou regra a partir de 1932, acabando com o controle que líderes locais exerciam sobre o chamado voto de cabresto.
O voto também se tornou obrigatório, redefinindo a participação política no país. São Paulo reagiu à demora na nova Constituição pegando em armas na Revolução Constitucionalista daquele mesmo ano — mas acabou derrotado, e o texto constitucional só veio em 1934. Insatisfeito com os custos da nova Carta e temendo a subversão após um levante comunista em 1935, Vargas armou um autogolpe dois anos depois.
A nova Constituição, inspirada na Constituição da Polônia, proibia greves e dava ao governo poder para demitir servidores públicos, marcando uma virada autoritária.
Indústria pesada e a paradoxo do fascismo
Usinas e mineradoras como a Companhia Siderúrgica Nacional, fundada em 1941, e a Vale do Rio Doce, criada no ano seguinte, simbolizaram a aposta na indústria pesada brasileira. Ao mesmo tempo, o regime adotava traços do fascismo, com culto à personalidade do próprio ditador e enquadramento das manifestações culturais numa perspectiva nacionalista.
Ironicamente, o mesmo país que vivia sob autoritarismo interno declarou guerra ao fascismo em 1942, tornando-se o único da América Latina a mandar tropas à Europa — e saindo vitorioso contra as forças alemãs. Essa contradição entre combater a ditadura lá fora e mantê-la em casa custou caro: terminada a guerra, Vargas foi derrubado do poder.
Sua popularidade, porém, seguia intacta, e ele retornou como presidente eleito em 1951, governando um Brasil dividido entre uma imprensa hostil. E uma esquerda que antes perseguira, mas que agora o apoiava em plena Guerra Fria.
Outros nomes decisivos
Figuras como Joaquim Nabuco e José Bonifácio também estão entre os escolhidos pelos especialistas consultados, representando outra vertente da formação nacional, a luta por direitos e a construção institucional do país.
Rui Barbosa, Dom João VI e Sérgio Buarque de Holanda perderam por margem mínima. Assim como Tiradentes, apontado por muitos como o primeiro herói nacional, que tampouco apareceu entre os mais votados — prova de que a disputa foi acirrada até a última posição.
A formação desses personagens históricos também reflete contextos institucionais mais amplos. A Universidade de Coimbra surge como referência na formação de figuras públicas brasileiras que estudaram em Portugal antes da independência.
Já o Ministério da Educação e Saúde, criado nas primeiras décadas do século 20, além de instituições como a Fundação Smithsonian e a Fundação Casa de Rui Barbosa, ajuda a reconstituir o contexto que cercou esses nomes quando pesquisadores avaliam sua importância histórica.
Carlos Lacerda, opositor histórico de Vargas, ilustra bem como as disputas políticas daquele período seguem ecoando: os embates entre os dois nomes ajudam a explicar por que a Era Vargas continua sendo terreno de debate intenso entre historiadores até hoje.
A própria impossibilidade de chegar a um consenso sobre Vargas — se herói ou vilão — demonstra o peso duradouro de sua passagem pelo poder e a dificuldade em avaliar seu legado sem que ele continue dividindo interpretações.










