Uma caverna no sul da Turquia guarda pistas de que neandertais e humanos modernos compartilhavam gostos parecidos muito antes de qualquer contato direto entre os grupos. Em camadas distintas do mesmo abrigo rochoso, arqueólogos encontraram 29 conchas marinhas da espécie Columbella rustica, coletadas tanto por uma espécie quanto pela outra.
O pequeno molusco não servia de alimento nem tinha uso prático conhecido. Para os pesquisadores, isso indica que o objeto tinha valor simbólico ou decorativo — um traço de comportamento que, até então, era atribuído só ao Homo sapiens.
A descoberta saiu na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, a PNAS, e reforça que a convivência entre as duas espécies humanas foi além da troca genética. Hoje, parte da população carrega entre 1% e 2% de DNA herdado dos neandertais, resultado de cruzamentos que já eram conhecidos pela ciência.
Cinco anos de escavação revelam o sítio üçağızlı II
Uma equipe internacional com pesquisadores da Turquia, do Japão e da França dedicou cinco anos ao trabalho na caverna Üçağızlı II, vasculhando o solo camada por camada. O local fica no Levante, corredor geográfico que liga a África à Eurásia e por onde o Homo sapiens passou ao deixar o continente africano.
Fósseis dessa época são raros, o que torna cada achado ali uma peça valiosa para entender o encontro entre as espécies. A datação das camadas de sedimento usou luminescência opticamente estimulada, técnica que calcula o tempo em que grãos minerais permaneceram sem contato com a luz do sol.
Troca de ocupantes sem grandes mudanças de hábito
A análise da estrutura interna dos dentes permitiu aos cientistas separar os fósseis por espécie. Neandertais habitaram a caverna entre cerca de 77 mil e 59 mil anos atrás, e humanos modernos ocuparam o espaço logo depois, entre aproximadamente 59 mil e 47 mil anos atrás.
Não existe prova de que os dois grupos estiveram ali ao mesmo tempo, mas a passagem de um para o outro aconteceu de forma rápida. Mesmo com a troca de moradores, o jeito de viver se manteve parecido: as ferramentas de pedra usavam sílex das mesmas fontes locais, e cabras selvagens e javalis continuavam sendo as presas preferidas.
Uma concha específica entre tantas opções
A costa do Mediterrâneo oferecia dezenas de espécies de conchas disponíveis para coleta. Ainda assim, neandertais e humanos modernos escolheram repetidamente a mesma: a Columbella rustica, sinal de uma preferência que atravessou gerações e espécies diferentes.
Parte das conchas analisadas apresentava furos, como se tivessem sido amarradas em colares ou outros adornos corporais. Uma peça do período neandertal mostrava marcas de aquecimento proposital, provavelmente para mudar o tom da cor original.
O que a escolha revela sobre os dois grupos
Garantir comida e sobreviver no dia a dia exigia esforço constante das duas espécies, o que torna ainda mais notável o interesse compartilhado por um item sem função alimentar. Mesmo sob pressão para sobreviver, neandertais e humanos modernos reservavam espaço para escolhas estéticas.
A arqueóloga April Nowell, da Universidade de Victoria, avaliou o achado em entrevista à Live Science. Segundo ela, os resultados apontam uma conexão profunda entre os dois grupos humanos, que pode ter envolvido troca de ideias e costumes, não apenas contato ocasional.
Os autores do estudo evitam afirmar que houve contato direto entre as populações, mas consideram mais provável que alguma forma de transmissão cultural tenha ocorrido. Ainda não há certeza sobre como esse conhecimento foi passado adiante, e novas escavações no sítio Üçağızlı II podem trazer respostas mais precisas sobre esse capítulo da história humana.










