Um britânico de 55 anos chamado Kashim Chowdhury enfrenta nove acusações de fraude no Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, suspeito de ter se mantido simultaneamente em oito empregos públicos, todos exercidos à distância. De acordo com reportagem do jornal britânico Daily Mail, ele se declara inocente de todas as acusações.
Pelo que sustenta a promotoria, entre fevereiro de 2020 e setembro de 2023 ele acumulou oito cargos em órgãos públicos sem que nenhum dos contratantes soubesse da existência dos demais empregos. Juntos, os vencimentos recebidos nesse intervalo somariam £ 349.378.
Jornadas contratadas superavam 168 horas semanais
Entre os órgãos que mantinham Chowdhury em seus quadros ao mesmo tempo estavam o Departamento de Comércio, o Ministério do Interior e a Agência de Padrões Alimentares. No período de maior acúmulo, a soma das jornadas contratadas chegava a 183 horas semanais — mais que as 168 horas de uma semana.
Em abril de 2023, ele teria recebido £ 11.015,62 líquidos de cinco empregadores diferentes, o equivalente a R$ 74 mil. Em maio, outros £ 8.745,88 caíram em sua conta, cerca de R$ 59 mil, segundo a acusação. Ele dizia precisar cuidar da mãe idosa para justificar o trabalho remoto e solicitava licenças médicas com frequência.
Suspeita de maquiagem para simular doença
Uma reunião virtual realizada em 10 de maio mostrou que os chefes desconfiavam do rendimento do funcionário. Colegas relataram ter notado uma substância esbranquiçada que se desfazia no rosto dele, além de uma diferença de tonalidade entre o rosto e o pescoço durante a chamada.
Diante do júri, Chowdhury negou qualquer encenação. Disse nunca ter usado maquiagem e negou ter encenado tosses ou assoado o nariz de forma teatral. Segundo seu depoimento, ele realmente estava resfriado naquele dia.
Defesa aponta transtorno de estresse pós-traumático
O réu afirmou ao júri conviver com transtorno de estresse pós-traumático, diagnosticado em 2015, cujos sintomas teriam retornado em 2021. Naquele período, ele acumulava funções no Departamento de Meio Ambiente e na prefeitura de Tower Hamlets e atribuiu ao quadro a decisão de se candidatar a várias vagas no setor público em busca de estabilidade financeira.
Questionado sobre ter marcado “não” em um formulário que perguntava se já era servidor público (mesmo enquanto trabalhava em outro emprego), ele respondeu que, naquele momento, não pensava na definição formal do termo e se via em situação de instabilidade profissional.
Em agosto de 2022, um formulário enviado à Agência de Segurança Sanitária omitiu três empregos que ele mantinha. Em depoimento, Chowdhury disse que não teve a intenção de omiti-los e atribuiu o esquecimento ao trauma e à angústia que vivia na época.
Juiz questiona contradição no depoimento
O juiz Mark Weekes questionou a contradição entre a alegação de que não considerava os cargos relevantes e a afirmação de que agiu sem plena consciência ao preencher os documentos. Chowdhury respondeu que seu julgamento estava comprometido naquele período.
Segundo ele, foi o agravamento da saúde da mãe que o levou a aceitar as ofertas da Agência de Segurança Sanitária, do Departamento de Comércio e do Ministério do Interior, e cada chefia teria sido informada sobre sua situação. O julgamento segue em andamento no tribunal londrino.
Como o trabalho remoto permitiu acumular múltiplos empregos
O trabalho remoto, adotado amplamente após a pandemia, permitiu que Chowdhury mantivesse simultaneamente oito empregos públicos. Sem necessidade de estar fisicamente presente nos escritórios, ele podia participar de reuniões de diferentes órgãos em horários que, teoricamente, não se sobrepusessem. Cada empregador via apenas o funcionário em suas atividades, sem saber dos demais vínculos que ele mantinha.










