John Hartson, ex-atacante de clubes como Arsenal, West Ham e Celtic, enfrentou um vício em apostas que quase destruiu sua vida e seu casamento, mesmo após sobreviver a um câncer testicular que se espalhou para os pulmões e o cérebro.
O jogador revelou em entrevista à BBC Radio que o problema se agravou justamente quando sua esposa Sarah o apoiava durante o tratamento da doença. E ele continuava apostando mesmo após sair do hospital, e a situação chegou ao pico quando Sarah empacotou suas malas e o deixou, comunicando que estava indo embora.
Ele desabou e prometeu que faria algo a respeito, mas o ponto de virada real veio apenas quando atingiu o fundo do poço e finalmente compreendeu que precisava de ajuda profissional. Hoje, há mais de três anos sem fazer uma única aposta, ele trabalha para conscientizar outros atletas sobre os riscos do vício em jogos.
A luta contra o câncer e o repouso oferecido pela família
Durante o tratamento do câncer em 2009, que exigiu duas cirurgias de emergência e mais de 60 sessões de quimioterapia, Sarah foi o pilar da família. Ela estava grávida, cuidava dos filhos e oferecia apoio emocional inestimável enquanto ele enfrentava a doença. Mas quando ele recebeu alta, o antigo padrão ressurgiu — e as apostas continuaram, apesar de tudo o que sua esposa havia sacrificado.
Ele passava as noites em casa ignorando a família, apostando até cinco mil libras em corridas de cavalos, críquete e torneios de golfe pela televisão. A esposa percebia claramente o problema, mas ele recusava aceitar. A situação atingiu seu ápice quando Sarah empacotou suas malas e comunicou que estava deixando a casa. Então ele desabou e prometeu fazer algo a respeito.
Mas o verdadeiro ponto de virada veio quando atingiu o fundo do poço. Hartson reconhece hoje que sua conduta foi “de um canalha” — expressão que usou ao falar ao BBC sobre como continuou apostando mesmo após sair do hospital, apesar de tudo o que sua esposa havia feito por ele.
O caminho para a recuperação e a vida sem apostas
A jornada dele pela recuperação começou quando se uniu aos Gamblers Anonymous (GA), organização que oferece suporte a pessoas com vício em jogos. Lá, ele compreendeu que existem apenas quatro destinos possíveis para um apostador compulsivo: a rua, a cadeia, a morte ou a sala de uma associação como a GA.
Ele chegou a essa última opção, e credita à organização não apenas a salvação de seu casamento, mas também da sua vida. Seu último jogo foi há três anos, três meses e três dias antes da entrevista ao BBC. Hoje frequenta as reuniões do GA duas vezes por semana, considerando a assistência como seu medicamento, com planos de continuar até os 70 anos.
Ele não compra bilhetes de loteria, não entra em casas de apostas e evita qualquer contexto que possa reacender o vício. Conforme informou ao BBC, disse que se apostar novamente vai morrer e perder tudo. Sua determinação é absoluta em nunca mais fazer uma aposta enquanto viver.
O vício em apostas entre atletas profissionais
A questão que ele ajuda a expor vai além de sua experiência pessoal. Pesquisas da Professional Players Federation indicam que atletas profissionais enfrentam risco elevado de desenvolver problemas com apostas em relação à população geral. No Reino Unido, estima-se que cerca de 400 mil pessoas convivem com vício em jogos.
A natureza enganosa do vício torna o problema ainda mais grave entre esportistas. Apostadores compulsivos são mentirosos compulsivos, excelentes em ocultar a realidade de suas vidas — mantêm empregos respeitáveis. Vivem em casarões bonitos e cercam-se de famílias amorosas, enquanto alimentam secretamente uma destruição financeira e emocional.
Um grupo desproporcionalmente grande consegue sustentar essa adição destrutiva enquanto joga profissionalmente, o que complica ainda mais o diagnóstico e a intervenção.
Hartson agora trabalha para alertar seus colegas sobre os perigos que enfrentou, lembrando que o vício em apostas mata tanto quanto doenças graves. Sua história serve como testemunho de que a recuperação é possível, mas exige reconhecimento absoluto do problema e disposição inabalável de buscar ajuda profissional.










