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Especialistas em comportamento explicam por que gesticulamos mesmo quando falamos ao telefone

Por Milton Filho
02/10/2026
Especialistas comportamento explicam gesticulamos falamos

Foto: RDNE Stock project/Pexels

Uma pessoa descreve um trajeto e as mãos desenham o percurso no ar, como se traçassem um mapa invisível. Outra conversa ao telefone sozinha em um cômodo e ainda assim move os braços para uma parede vazia. Esse comportamento costuma ser lido como traço de personalidade ou herança cultural de quem gosta de se expressar com intensidade.

A psicologia do comportamento sugere outra explicação: as mãos participam ativamente do processo de pensar, não apenas de comunicar algo já pronto.

O experimento que revelou a função do gesto

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Em 2001, um grupo da Universidade de Chicago liderado pela psicóloga Susan Goldin-Meadow conduziu um estudo publicado na Psychological Science que combinava duas tarefas. Os voluntários precisavam resolver um problema de matemática em voz alta e, ao mesmo tempo, guardar na memória uma sequência de letras ou palavras.

A diferença de desempenho apareceu justamente na lista memorizada. Ao explicar o raciocínio gesticulando, os voluntários deixaram mais espaço mental livre para reter os itens do que quando explicavam com as mãos paradas. O resultado indica que o gesto aliviava o esforço cognitivo da fala.

Só funciona quando o gesto tem sentido

Em outra etapa, a pesquisa testou movimentos aleatórios, sem ligação com o conteúdo da fala, e nesses casos, a vantagem na memória desaparecia. O benefício só se mantinha quando o movimento das mãos acompanhava o raciocínio sendo verbalizado naquele instante. Mexer as mãos à toa não ajuda em nada, é a sincronia entre gesto e pensamento que faz a diferença.

A prova que veio de quem nunca viu ninguém gesticular

Restava uma dúvida importante: será que o gesto existe apenas para facilitar o entendimento de quem escuta? Em 1998, um artigo na Nature, assinado por Jana Iverson e Susan Goldin-Meadow, respondeu a essa questão de um jeito inesperado.

Pessoas cegas de nascença, que jamais presenciaram alguém gesticulando, movimentam as mãos normalmente enquanto falam. O movimento persiste até quando o interlocutor também é cego e não pode ver os gestos.

Sem plateia para impressionar e sem modelo visual para copiar, o gesto surge mesmo assim. Essa descoberta reforça que mexer as mãos é parte da construção da fala, não um complemento dirigido a quem observa.

Consequências para quem fala em público

Esse achado questiona uma prática comum de treinamento de oratória: pedir que o palestrante mantenha as mãos quietas para parecer mais controlado. Se o gesto ajuda a organizar o raciocínio, essa contenção pode cobrar um preço justamente na hora de maior pressão.

Na sala de aula, a mesma lógica aparece em pesquisas sobre aprendizagem. Crianças orientadas a fazer gestos específicos durante uma explicação de matemática absorveram o conteúdo melhor do que as que foram instruídas a ficar com as mãos paradas. Parte do que elas aprendiam aparecia primeiro nas mãos e só depois na fala.

Gesticular muito não significa pensar melhor

Vale uma ressalva: quem gesticula bastante não tem vantagem automática sobre quem gesticula pouco. As comparações acompanham a mesma pessoa falando com e sem gesto, não pessoas diferentes entre si. Cultura, contexto e personalidade influenciam quanto alguém mexe as mãos ao falar, e essa variação não mede capacidade de raciocínio. 

Gesticular também não substitui o domínio do assunto. O efeito é aliviar a carga mental durante a explicação, não melhorar o conteúdo explicado. Pedir que alguém mantenha as mãos quietas durante uma apresentação pode atrapalhar justamente o raciocínio que sustenta a fala. A pessoa pode parecer mais contida, mas terá menos recursos disponíveis para pensar no que está dizendo.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Milton Filho

Milton Filho

Jornalista, sergipano e coautor do livro 'Memórias do Esporte Clube Vitória: a história rubro-negra contada por seus personagens'

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