Os Cavaleiros de São João, uma ordem religiosa católica criada durante a Idade Média, transformaram Malta em um importante território fortificado, deixando marcas que permanecem preservadas até os dias atuais. A organização surgiu em Jerusalém, por volta de 1050, inicialmente como uma instituição hospitalar destinada a acolher e prestar assistência aos peregrinos. Com o passar dos séculos, ganhou força e se consolidou como uma potência militar, exercendo influência sobre a arquitetura, a defesa territorial e o cenário político da região do Mediterrâneo.
Tudo começou quando um grupo de mercadores conseguiu do governador local autorização para erguer, na cidade, uma igreja e um hospital voltados a quem visitava o Santo Sepulcro. Com o agravamento dos conflitos entre cristãos e muçulmanos na região, a instituição passou a atuar também na frente militar, sem deixar de lado o cuidado com os enfermos que a originou.
Da Terra Santa ao Mediterrâneo
A conquista de Jerusalém pelos cristãos em 1099, durante a Primeira Cruzada, abriu uma era de campanhas militares e peregrinações armadas no Oriente Médio. Os Hospitalários ganharam notoriedade ao aliar o cuidado com doentes e peregrinos à defesa de territórios cristãos, consolidando poder na Terra Santa ao longo de décadas.
A queda de Acre em 1291 encerrou os principais domínios cristãos na região e forçou a ordem a migrar. Os cavaleiros deixaram o Oriente Médio e passaram por Chipre, depois por Rodes, onde resistiram até serem expulsos pelos otomanos em 1522 — Malta viraria o destino seguinte.
Malta como fortaleza cristã
Na ilha, os Hospitalários reforçaram as estruturas defensivas e enfrentaram o cerco otomano, que durou de maio a setembro de 1565 e foi um dos conflitos mais decisivos da história militar europeia. Jean Parisot de La Valette, 49º Grão-Mestre da Ordem, liderou a resistência aos cerca de 70 anos de idade.
A permanência em Malta terminou em 1798, quando Napoleão Bonaparte ocupou a ilha durante sua campanha no Mediterrâneo. A ordem passou por sedes provisórias em Messina, Catânia e Ferrara até se fixar definitivamente em Roma, em 1834. A ordem segue em Roma até hoje, mas Malta preserva vestígios de sua presença espalhados por toda a ilha.
Vittoriosa, o coração da ordem
A cidade de Vittoriosa serviu como residência principal dos cavaleiros e concentra seus monumentos mais importantes. São raros os edifícios desse tipo que resistiram até hoje, e o Palácio do Inquisidor é, entre eles, o único palácio inquisitorial do mundo que pode ser visitado pelo público. Hoje, funciona como museu com reproduções de ambientes de séculos passados.
A Praça Vittoriosa abriga o Monumento à Vitória Verde, ligado à memória do Grande Cerco de 1565. Já o Forte St Angelo, reconstruído e ampliado pelos cavaleiros para fins defensivos, teve papel decisivo durante o cerco e segue como um dos principais exemplares de arquitetura militar da ilha. Hoje, está em reformas, mas é visível de vários pontos de Valletta.
Torres e templos que restam
Erguida em 1618 na pequena ilha de Comino, a Torre Santa Marija fazia parte da rede de vigilância e comunicação que os Cavaleiros mantinham para proteger o arquipélago maltês. Ao longo dos séculos, a estrutura serviu para abrigar animais e como hospital de quarentena antes de se tornar uma das principais marcas da passagem da ordem na ilha.
Já a Co-Catedral de São João, em Valletta, foi construída como templo da ordem e reúne arquitetura barroca, tapeçarias e obras ligadas aos cavaleiros, com referências constantes à cruz de Malta e à presença de A Decapitação de São João Batista , de Caravaggio.
A Armeria do Palácio, no Palácio do Grão-Mestre, guarda uma coleção de armas e armaduras dos séculos 16 e 18, incluindo peças de La Valette.
A Sacra Infermeria, fundada em 1574, funcionou como hospital com cerca de 600 leitos e ficou conhecida pelas práticas de higiene e pelos procedimentos cirúrgicos à frente de seu tempo. Hoje, o prédio preserva a reconstrução de uma antiga farmácia.
Mais de 320 monumentos distribuídos em 55 hectares transformam Malta em um museu a céu aberto da presença medieval dos Cavaleiros de São João.
Os ataques que precederam o Grande Cerco
Antes de 1565, Malta já havia enfrentado invasões otomanas que sinalizavam o que viria. Em 1551, o corsário turco Dragute Arrais e o almirante Sinán invadiram a ilha com cerca de 10 mil homens. Embora o ataque à ilha principal tenha sido contido rapidamente, Dragute desviou para Gozo, a ilha vizinha.
Bombardeou a cidadela e capturou praticamente toda a população — cerca de 5 mil habitantes — como reféns. Depois, dirigiu-se a Trípoli e expulsou facilmente a guarnição de Cavaleiros que lá estava.
Esses ataques anteriores levaram o Grão-Mestre Juan de Homedes a antecipar uma nova invasão em menos de um ano. Em resposta, reforçou o Forte de Santo Ângelo em Birgu (atual Vittoriosa) e mandou construir dois novos fortes — São Miguel e São Elmo — que foram edificados em apenas seis meses no ano de 1552.
Essas três fortificações se mostrariam cruciais para o resultado do Grande Cerco de 1565.








