Impostos, combustíveis e pneus devem ficar mais caros ou mais baratos nos próximos meses, a depender de pelo menos cinco decisões que o Governo Federal ainda não bateu o martelo. Parte dessas definições só sai depois do segundo turno das eleições, e essa espera já afeta diretamente quem tem carro.
Em dois casos específicos, o calendário eleitoral travou diretamente o processo: a definição de quanto o novo Imposto Seletivo vai cobrar e a decisão sobre o Imposto de Importação dos pneus de passeio trazidos de fora do país. As duas ficaram represadas até a conclusão do processo eleitoral, o que atrasa o planejamento de montadoras e consumidores para o próximo ano.
O imposto que falta regulamentar
A reforma tributária instituiu o Imposto Seletivo para taxar produtos considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente, e os carros fazem parte dessa lista, mas as montadoras ainda não têm como calcular quanto vão pagar por cada veículo. Os automóveis estão incluídos nessa categoria.
A cobrança, porém, não será uniforme: dependerá de critérios como consumo de energia, capacidade de reciclagem, emissão de carbono e peso da fabricação feita em território nacional. Por isso, carros de preço e segmento parecidos podem acabar pagando valores diferentes de imposto, dependendo de como cada um se enquadra nesses critérios — lógica semelhante à adotada hoje pelo IPI Verde.
O texto que vai detalhar essas regras seguia em negociação até a última sexta-feira (2), quando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que elas só serão apresentadas após o segundo turno. O atraso já mexe no calendário de cobrança: por causa da regra da noventena, a lei que regulamentar o imposto só pode valer depois de passados três meses de sua publicação.
Isso derruba a possibilidade de o Imposto Seletivo começar a valer em 1º de janeiro de 2027, como o governo pretendia inicialmente. A nova estimativa da equipe econômica aponta fevereiro como mês provável para o início da cobrança, com reflexo na arrecadação apenas a partir de março.
Esse adiamento equivale a uma perda inicial de R$ 3,8 bilhões frente ao que o governo projetava arrecadar com o imposto em 2027 — e deixa montadoras sem parâmetro definitivo para precificar lançamentos do próximo ano.
Na última quinta-feira (8), o governo chegou a um acordo com os setores envolvidos sobre o desenho do Imposto Seletivo, abrindo caminho para o envio da medida provisória assim que as eleições terminarem.
O cenário de incerteza tributária ocorre justamente num momento de expansão do mercado. No primeiro trimestre de 2026, onze novas marcas estrangeiras entraram no Brasil, e a tendência é que mais fabricantes asiáticos desembarquem por aqui.
Combustíveis com desconto por prazo limitado
Enquanto o Imposto Seletivo ainda não tem data certa, o alívio tributário nos combustíveis está com prazo definido. A alta internacional do petróleo levou o governo a reduzir. Em setembro, as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins sobre a gasolina em R$ 0,63 por litro, além de zerar temporariamente a cobrança sobre o etanol hidratado.
Esse desconto, no entanto, tinha prazo certo para acabar: o decreto vigorou de 10 de setembro a 9 de outubro. Agora que o período chegou ao fim, cabe ao governo optar entre estender o benefício, criar um novo formato de alívio tributário ou deixar a cobrança voltar ao patamar anterior.
No diesel, o mecanismo escolhido pelo governo foi diferente. Uma subvenção econômica para produtores e importadores substituiu o corte de tributos, com valor referencial fixado em R$ 2,12 por litro no fim de setembro.
Essa política também tem caráter temporário, e a decisão sobre sua continuidade é uma das mais imediatas do período pós-eleitoral. Quem abastece o carro pode ver mudanças de preço conforme o governo decide sobre a prorrogação ou não desses benefícios, além do cenário internacional do petróleo.
Pneus importados sob disputa tarifária
Outro ponto represado até depois da votação é o valor do Imposto de Importação cobrado sobre pneus de passeio importados. Os pneus novos estão sujeitos atualmente a uma alíquota de 25%, subida de 16% que ocorreu em outubro de 2024.
A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos pede aumento para 35%, argumentando que produtos importados ganharam rapidamente participação no mercado, pressionando a produção nacional. Do outro lado, a Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus é contrária, alegando que uma tarifa maior encarece o produto e reduz a concorrência.
A definição está nas mãos do Comitê-Executivo de Gestão da Camex, que tem reunião marcada para 29 de outubro para discutir o assunto. Enquanto isso, oficinas e consumidores seguem sem saber se o preço final vai subir ou cair.
Multas de pedágio e fiscalização eletrônica
Além das questões tributárias, o Ministério dos Transportes também monitora mudanças em regras de fiscalização eletrônica que afetam diretamente quem roda em rodovias com cobrança automática. Ajustes nesse sistema tendem a interferir no valor final pago por quem passa com frequência por pedágios equipados com câmeras e sensores de identificação de veículos.
Também na área tributária, o split payment, mecanismo de cobrança de tributos sobre o consumo, começa de forma opcional e gradual apenas entre empresas, sem impacto inicial em pequenos negócios do varejo.
Para o motorista, a recomendação prática é acompanhar de perto a publicação da medida provisória do Imposto Seletivo e o desfecho da disputa tarifária dos pneus. As duas decisões devem sair do papel nas primeiras semanas após a definição do segundo turno.
Esse pacote de decisões, somado ao fim do desconto nos combustíveis, vai moldar o custo de manter um carro rodando em 2027.










