Ruínas desenterradas no Parque Arqueológico de Pompeia, na Itália, revelam como era a vida cotidiana da época do Império Romano antes de a cidade desaparecer sob cinzas e pedra-pomes, em 79 da era comum. Nas escavações mais recentes, arqueólogos encontraram ambientes decorados com pinturas refinadas, uma estrutura usada para assar pães, restos humanos e uma representação de comida servida em uma travessa de prata.
Tudo foi preservado pela catástrofe que destruiu a cidade quando o Monte Vesúvio entrou em erupção. Cerca de um terço de Pompeia segue coberto por camadas de pedra-pomes e cinzas lançadas pelo vulcão. Novas técnicas e ideias de preservação poderão ser usadas pelas gerações futuras.
O trecho onde o time trabalha agora, próximo à Via Di Nola, uma das ruas centrais da antiga cidade, não recebia investigação arqueológica desde as últimas décadas do século 19. Na época, limitaram-se a abrir as fachadas das casas, sem aprofundar a busca.
Um bairro inteiro escondido sob os escombros
O sítio de escavação representa uma ínsula, ou quarteirão romano, com cerca de 3 mil metros quadrados. O trabalho atual retira progressivamente as cinzas vulcânicas e lapilli — pequenas pedras do tamanho de ervilhas — que sufocaram a região durante os dois dias devastadores da erupção do Vesúvio.
Gennaro Iovino, um dos arqueólogos líderes do projeto, disse que o trabalho busca micro-histórias dentro da grande história de Pompeia. Segundo ele, cada cômodo revela como as pessoas viviam e se preparavam quando a tragédia chegou. Os construtores faziam reparos quando a erupção ocorreu, como mostram as telhas empilhadas ordenadamente em duas estruturas separadas.
Padaria, residência e a enigmática “pizza”
O edifício não era uma mansão suntuosa, mas mesclava espaço residencial com funções comerciais. Um forno capaz de produzir 100 pães por dia ocupa um cômodo ao lado do átrio.
A estrutura sugere que o local funcionava como centro de distribuição de pão para a cidade e abastecia os muitos estabelecimentos de alimentos pelos quais Pompeia era conhecida. Cerca de 50 padarias já foram identificadas em toda a região arqueológica.
Um afresco que retrata um pão achatado e redondo em uma bandeja de prata, acompanhado de romã, tâmaras, nozes e medronhos, chamou atenção internacional quando foi anunciado em junho. A descoberta começou como uma brincadeira: Gennaro Iovino enviou uma foto por email ao chefe e disse à imprensa que havia encontrado primeiro o forno e agora a pizza.
A imagem repercutiu nas redes sociais e logo recebeu o apelido de “pizza ancestral”. Na realidade, o alimento retratado não pode ser considerado uma pizza como a conhecemos hoje, já que ingredientes centrais da receita napolitana, como o tomate e a mussarela, ainda não existiam na península itálica naquele período histórico. Gennaro Iovino sugere que a imagem pode representar, na verdade, uma focaccia.
Uma cobertura será construída sobre o afresco para protegê-lo das intempéries. Cerca de 20 mil visitantes chegam a Pompeia diariamente para ver o “antepassado da pizza”.
Santuário, vítimas e o mistério dos que ficaram
Na parte traseira do sítio, arqueólogos encontraram um santuário em uma cozinha antiga. Duas serpentes amarelas em relevo aparecem sobre um fundo bordô, acima de uma abertura para uma caixa onde eram feitas oferendas aos deuses.
Segundo especialistas, cobras representam a conexão entre os deuses e os humanos e que alimentos como peixes ou frutas eram oferecidos ali. Outro afresco encontrado no local ilustra uma passagem da mitologia grega: o momento em que Aquiles se disfarça de mulher na tentativa de escapar da convocação para a Guerra de Troia.
Entre os achados mais perturbadores estão os esqueletos de vítimas da erupção: duas mulheres e uma criança de sexo desconhecido foram recuperados neste setor. No total, cerca de 1.300 a 1.500 esqueletos já foram encontrados em Pompeia.
Análises indicam que algumas vítimas tentavam se proteger sob escadas quando o telhado desabou com o peso das cinzas e lapilli, esmagando seus corpos. Gabriel Zuchtriegel, diretor do parque, questiona quem eram as pessoas que não conseguiram escapar. E especula se eram as mais pobres, se havia mais mulheres que homens ou se eram proprietários que tentaram proteger suas posses enquanto outros fugiam.










