Instalada no município de Querência, em Mato Grosso, a Fazenda Roncador já teve o título de maior propriedade rural brasileira. Foi fundada em 1978 pelo engenheiro civil e ex-tropeiro Pelerson Soares Penido. Em seu período de maior extensão, a fazenda somou 152 mil hectares, área maior que a de toda a Grande São Paulo.
Penido tinha 60 anos quando deu início ao empreendimento, colocando em prática um modelo de pecuária visto como inovador para aquele momento. Com o tempo, a fazenda ganhou 607 quilômetros de vias pavimentadas, além de outros 800 quilômetros de estradas internas que davam acesso a escolas, mercados, igrejas e espaços de esporte.
A fazenda também tinha um aeroporto particular e funcionava como uma pequena cidade autossuficiente.
A transformação para integração lavoura-pecuária
Há pouco mais de dez anos, a Fazenda Roncador adotou a integração lavoura-pecuária (ILP), substituiu o modelo tradicional e passou a aplicar novas práticas de gestão ambiental. Lavoura, pecuária e florestas passaram a funcionar juntas no mesmo espaço produtivo.
Os números refletem essa transformação: só em 2019, a propriedade colheu 166.256 toneladas de soja e produziu 5.200 toneladas de carne, com crescimento expressivo e sem desmatar vegetação nativa.
Como funciona o sistema 4P
O novo modelo, batizado de sistema 4P, une plantas, pecuária, pessoas e planeta em um ecossistema único. A soja, espécie leguminosa, tem a propriedade de fixar nitrogênio no solo, o que estimula o desenvolvimento das pastagens e diminui a dependência de adubos químicos.
Após a colheita, a palhada permanece no solo, funciona como adubo natural e o protege contra a erosão. O gado se alimenta das pastagens enriquecidas e devolve nutrientes ao terreno por meio dos dejetos, e essa interação contínua torna o sistema autossustentável.
Preservação ambiental e números atuais
A propriedade foi dividida entre herdeiros e hoje soma 53 mil hectares. Aproximadamente metade da área é formada por matas nativas e áreas de proteção permanente, que funcionam como sumidouros de carbono.
Desde 2009, a fazenda retira da atmosfera mais gases poluentes do que emite, segundo levantamento da Pangea Capital publicado em 2018. O estudo apontou a retenção de mais de 89 mil toneladas de carbono, e cerca de mil moradores vivem na propriedade.
Quando Pelerson Penido Dalla Vecchia, neto do fundador e conhecido como Peleco, assumiu o comando, em 2002, a fazenda estava 80% degradada e tinha baixa produtividade. A transformação posterior mostrou como a modernização tecnológica e as práticas sustentáveis podem aumentar a produção no mesmo espaço.
Como a soja enriquece o solo para melhorar a pecuária
Na integração lavoura-pecuária, a soja funciona como um “fertilizante vivo” para o sistema. Como leguminosa, ela captura nitrogênio do ar e o fixa no solo, um nutriente essencial para as plantas. Quando a soja é colhida, a palha, formada pelos restos da planta, permanece no terreno como adubo natural e protege o solo da erosão.
Com isso, o ciclo seguinte de pastagem cresce com mais nutrientes, permitindo que o gado engorde mais rápido no mesmo espaço. Depois que o animal come essa pastagem enriquecida, seus dejetos devolvem nutrientes ao solo. Assim, em vez de comprar fertilizantes químicos caros, o fazendeiro usa um ciclo natural de renovação do solo.
Esse ciclo torna o sistema autossustentável: quanto melhor o solo, mais forte a pastagem; quanto mais forte a pastagem, melhor o gado; quanto melhor o gado, mais adubo natural retorna ao solo.










