Pesquisadores da Austrália e dos Estados Unidos desenvolvem estudos para tentar recuperar o tigre-da-Tasmânia, também conhecido como tilacino (Thylacinus cynocephalus), marsupial carnívoro extinto há quase um século. A iniciativa utiliza técnicas de engenharia genética e pesquisa com células-tronco para investigar a possibilidade de produzir um animal com características semelhantes às da espécie desaparecida.
O último exemplar conhecido do tilacino morreu em cativeiro, em 1936, em um zoológico de Hobart, capital da ilha da Tasmânia, na Austrália. A extinção foi resultado de um processo de declínio populacional associado, principalmente, à caça promovida por seres humanos e a outras pressões ambientais. O projeto reúne pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, e da empresa de biotecnologia Colossal, dos Estados Unidos. A proposta é combinar informações genéticas obtidas de espécimes preservados com tecnologias capazes de modificar o DNA de espécies vivas relacionadas ao animal extinto.
Engenharia genética como estratégia
Uma das principais linhas de investigação envolve a identificação de características genéticas do tilacino e a comparação com o material genético de marsupiais que ainda existem. A partir dessas informações, os cientistas pretendem estudar modificações que possam resultar em um organismo com características físicas e biológicas semelhantes às do animal extinto.
O trabalho também depende do desenvolvimento de técnicas de reprodução e de procedimentos que permitam o crescimento e o desenvolvimento de embriões. Mesmo com os avanços da biotecnologia, essas etapas representam obstáculos importantes para a concretização da proposta. Em 2022, pesquisadores envolvidos na iniciativa estimaram que o nascimento de um animal poderia ocorrer em cerca de dez anos. A previsão, no entanto, estava condicionada ao sucesso de etapas experimentais e não representava uma garantia de que o objetivo seria alcançado dentro desse prazo.
Especialistas questionam a viabilidade
Embora o projeto tenha despertado interesse internacional, a proposta também gerou críticas na comunidade científica. Uma das principais questões diz respeito à possibilidade de recriar uma espécie extinta a partir de técnicas de edição genética. Especialistas apontam que produzir um animal geneticamente semelhante não significa necessariamente recuperar a espécie original. Diferenças no DNA, no desenvolvimento embrionário, na fisiologia e no comportamento podem impedir que o organismo resultante apresente todas as características do tilacino.
Outro desafio é garantir que um eventual animal nasça saudável e tenha condições de sobreviver. Para isso, seria necessário superar dificuldades relacionadas à reprodução, ao desenvolvimento e à adaptação do organismo. O pesquisador Jeremy Austin, associado ao Centro Australiano de DNA Antigo, está entre os críticos da iniciativa. Suas ressalvas envolvem a viabilidade científica da proposta e a necessidade de avaliar com cautela as expectativas criadas em torno da chamada desextinção.
Debate vai além do laboratório
A tentativa de recuperar o tigre-da-Tasmânia integra um campo de pesquisa que busca utilizar ferramentas genéticas para desenvolver organismos semelhantes a espécies desaparecidas. Os defensores dessas iniciativas destacam o potencial de ampliar o conhecimento científico e desenvolver tecnologias aplicáveis à conservação da biodiversidade. Por outro lado, pesquisadores discutem se os recursos destinados à desextinção poderiam produzir resultados mais efetivos quando aplicados à proteção de espécies ameaçadas e à recuperação de habitats naturais.
A eventual reintrodução de um animal recriado também exigiria estudos sobre seu papel ecológico, suas necessidades ambientais e os impactos que poderia provocar nos ecossistemas atuais. Apesar dos avanços tecnológicos, a recuperação do tilacino permanece um desafio científico complexo. A iniciativa evidencia tanto as possibilidades abertas pela engenharia genética quanto os limites e as incertezas envolvidos na tentativa de reverter os efeitos da extinção.










