Moradora do Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, Carmelina Alves Nogueira tem 106 anos e atravessou boa parte da história política do país. No último domingo (4), ela foi até a escola de seu bairro para votar, levada pela neta, um direito que só passou a exercer na fase adulta e que nem todos de sua geração chegam a manter.
O gesto representa uma escolha individual e a persistência de um grupo que cresce a cada ano. O Tribunal Superior Eleitoral registra hoje 298.239 eleitores com 100 anos ou mais no país, número que equivale a 0,19% de todo o eleitorado. Ao todo, 158.745.463 pessoas estão aptas a votar no país, e 22.203.912 delas fazem parte de faixas etárias dispensadas da obrigatoriedade do voto, entre elas a dos centenários.
Uma vida de mais de um século
Carmelina nasceu antes da criação do primeiro Código Eleitoral, em 1932 — marco que estabeleceu as bases do sistema de votação brasileiro. Ao longo da vida, testemunhou reformas na forma de votar, mudanças nas estruturas políticas e o surgimento de novas gerações de eleitores, cada uma com suas prioridades e desafios.
Casada aos 16 anos, ela dedicou a maior parte de sua vida à família. Quando seu marido recebeu proposta de trabalho na Estrada de Ferro Sorocabana, ela deixou a região de Tatuí, no interior, e se estabeleceu na capital paulista por volta dos 30 anos. Teve 11 filhos, dos quais quatro permanecem vivos, e sua descendência já alcança cinco gerações.
Carmelina mantém a mobilidade, e a bengala que os familiares sugerem usar serve mais como acessório para passeios do que como apoio.
O significado do voto para Carmelina
Ao chegar ao colégio eleitoral no domingo, Carmelina disse à TV Globo que continua votando porque deseja que seu candidato vença. Ao G1, afirmou que espera de quem ocupa cargos públicos honestidade e disposição para governar direito, e também aconselhou as pessoas a escolherem bem seus candidatos.
Segundo sua neta Eliane Nokata, que a acompanhou, a votação transcorreu sem contratempos. O título de eleitor de Carmelina era antigo, por isso foi necessário confirmar previamente o número da seção. As pessoas na fila cederam passagem à idosa por causa da idade, permitindo que ela votasse rapidamente. O gesto refletiu o respeito que seu exemplo e sua idade inspiram.
Centenários no Brasil: um fenômeno crescente
O caso de Carmelina insere-se em um contexto mais amplo de longevidade brasileira. O Rio de Janeiro concentra o maior contingente de eleitores centenários, com 105.262 pessoas — equivalente a 35% desse público nacional. São Paulo vem em seguida com 79.874 centenários, seguido pelo Rio Grande do Sul, que tem 21.022.
Até maio do ano anterior, três das pessoas mais longevas do mundo eram brasileiras, segundo Mayana Zatz, professora titular de genética do Centro do Genoma da USP. A freira Inah faleceu com quase 117 anos, e um dos dois homens chegou aos 114 anos e foi reconhecido como o homem mais velho do planeta. Os dois representam a força genética e biológica de certas populações brasileiras.
O Centro do Genoma colheu amostras de 240 centenários para pesquisa, incluindo 20 supercentenários, pessoas com mais de 110 anos. A longevidade de Carmelina é comemorada todos os anos pela família. Ela sempre faz questão de celebrar seu aniversário e, ao final da festa, despede-se dos presentes já marcando o encontro seguinte.
Entre os parentes, esse costume se tornou uma espécie de marca registrada dela, um gesto que, aos 106 anos, carrega esperança e gratidão por mais um ano de vida.










