O jogador de futebol Júnior Santos trilhou um caminho distante do que geralmente seguem os atletas profissionais. Nascido em Conceição de Jacuípe, na Bahia, ele partiu para Salvador aos 20 anos sem perspectiva de carreira no esporte. Trabalhava como ajudante de pedreiro enquanto jogava de forma amadora nos fins de semana para complementar a renda.
O futebol de várzea, no entanto, passou a render mais dinheiro que a construção civil. Com bom desempenho nos campeonatos locais, começou a receber cachês de 50 reais por partida, depois 300 reais, até chegar a 500 reais.
No futebol amador, ele tirava cerca de 3.000 reais por mês, o que o mantinha distante da profissionalização. Mesmo quando recebeu propostas de equipes como Bahia de Feira e Fluminense de Feira, que ofereciam apenas 800 reais.
A mudança de rumo aos 23 anos
Tudo mudou quando uma experiência religiosa o levou a acreditar que rodaria o mundo jogando futebol. Durante um jogo amador, um homem o interpelou e disse que ele desperdiçava seu talento fora de um time profissional e poderia ser um grande jogador, e o episódio o marcou profundamente.
A decisão foi radical: vendeu seus poucos pertences e partiu para São Paulo com a chance de atuar pelo Osvaldo Cruz, então na quarta divisão estadual. O salto foi árduo, e em São Paulo, ele passou a receber cerca de 200 reais quando o time ganhava os jogos, valor muito inferior ao que tirava como amador.
Júnior Santos tinha dois filhos na Bahia e precisava mandar dinheiro, mas as dificuldades quase o fizeram desistir. O atleta ligou para o pai dizendo que voltaria, e seu pai respondeu, conforme Júnior contou ao GE, que, se voltasse, seria para nunca mais falar com ele, e júnior permaneceu em São Paulo.
Do anonimato ao destaque do Botafogo
O salto para a profissão se concretizou após passagens por clubes menores. Júnior foi destaque da Bezinha de 2017 e conheceu seu empresário, Edivaldo Ferraz. Na virada de temporada, passou em teste no Ituano, então na primeira divisão do Paulista e na Série D do Brasileirão. Durante os testes, seu pai José Antonio sofreu um AVC e perdeu a memória.
Sem poder sair de São Paulo, Júnior não estava presente quando o pai faleceu anos depois. Depois do Ituano, fechou com a Ponte Preta em 2018 e marcou nove gols em 38 jogos pela Macaca na Série B. O Fortaleza o contratou, e Júnior foi artilheiro e campeão da Copa do Nordeste de 2019. No segundo semestre daquele ano, atuou no futebol japonês pelo Sanfrecce Hiroshima.
Ele retornou ao Brasil em 2022 para atuar pelo Botafogo sob o comando do técnico Luís Castro. Júnior Santos se tornou um dos destaques da campanha que levou o time à liderança do Brasileirão e participou de vitórias importantes, como a sobre o Atlético-MG. Naquela partida, foi um dos melhores em campo usando a camisa número 37.
Sua trajetória foge das histórias mais comuns do futebol brasileiro, em que o acesso à profissionalização costuma ocorrer desde a adolescência, em centros de treinamento. Em 2024, conquistou o título da Libertadores e o Campeonato Brasileiro pelo Botafogo, consolidando uma trajetória que ele próprio admite parecer um sonho.
Júnior procura tratar todos bem e ser a mesma pessoa, alegre e brincalhona, em qualquer situação. Para ele, todos têm um propósito na vida, independentemente do sofrimento. Atualmente, ele segue no Botafogo, agora, por empréstimo após uma passagem pelo Atlético-MG.










