Muito antes de chegar ao comando de uma indústria de calçados infantis com faturamento de R$ 200 milhões anuais, Carlos Mestriner fazia a limpeza de uma fábrica de materiais para sapatos em Birigui, no interior de São Paulo. Ele tinha apenas 12 anos e dividia ali as tarefas de office boy e de faxineiro, na cidade situada a cerca de 500 quilômetros da capital paulista.
Aos 63 anos, ele está à frente da Klin Calçados, criada em julho de 1983 para atender ao mercado de calçados infantis. A companhia fabrica em torno de 5,5 milhões de pares anualmente e encerrou 2025 com receita de R$ 200 milhões. Mas quase fechou as portas na década de 1980, quando os juros bancários dispararam.
Da vassoura à gerência de loja
Segundo Mestriner, a curiosidade sobre cada etapa da fabricação de sapatos impulsionou sua trajetória. Observar de perto o funcionamento da fábrica em Birigui plantou nele a ideia de abrir uma indústria própria no futuro.
Com apenas 15 anos, ele assumia a gerência da loja onde trabalhava. Depois disso, passou a atuar como representante comercial, função que o levava a visitar fábricas de calçados por toda a região e aprender de perto o processo produtivo.
Um parque fabril montado com máquinas usadas
Enquanto ainda vendia como representante, ele já negociava a compra de equipamentos usados de fábricas que renovavam seus parques industriais. O investimento somou cerca de R$ 20 mil em valores atuais, quantia que formou a base do primeiro maquinário da Klin.
Esse acervo permitiu à empresa produzir internamente desde os primeiros dias, em um galpão de apenas 60 metros quadrados. Ele e um único funcionário fabricavam entre oito e dez pares por dia. Mestriner levava os pares para vender em cidades vizinhas enquanto cursava direito e dormia pouco entre aulas e leituras.
Os juros que quase quebraram a empresa
Nos primeiros anos de operação, a decisão de acelerar a expansão com empréstimos bancários parecia vantajosa diante dos juros da época. O plano desmoronou com a virada econômica da década de 1980, quando as taxas dispararam e comprometeram o caixa da empresa.
As contas deixaram de fechar: o que havia a receber não cobria o custo da matéria-prima e as parcelas dos empréstimos, segundo Mestriner. O contador da Klin recomendou pedir concordata, mecanismo equivalente à recuperação judicial da época, mas Mestriner recusou a saída.
A venda que salvou o negócio
Em conversa com o pai e o restante da família, ele optou por vender um bem do patrimônio paterno para levantar dinheiro. O valor obtido foi usado para negociar diretamente com os bancos credores uma dívida equivalente a cerca de R$ 2 milhões em valores atuais.
O acordo quitou o débito por R$ 450 mil, recompôs o capital de giro e manteve a fábrica funcionando sem interrupção. Um ano depois, o empresário devolveu ao pai o valor obtido com a venda e encerrou o episódio, que ele descreve como uma lição que ultrapassou os limites da gestão empresarial.
Expansão cautelosa depois da crise
A quase falência mudou a forma como a Klin crescia. A empresa passou a se expandir com mais cautela para não repetir o ritmo dos primeiros anos. Hoje, opera quatro unidades fabris e emprega cerca de 2 mil pessoas. Produz cerca de 5,5 milhões de pares por ano, dos quais 1,3 milhão seguem para o mercado externo.
Cidades do interior brasileiro, e não as capitais, concentram boa parte das vendas da marca, apoiadas por representantes distribuídos em cerca de 60 escritórios pelo território nacional. A partir da década de 1990, a empresa passou a exportar com mais força, chegando hoje a cerca de 60 países, com destaque para os mercados latino-americano e do Oriente Médio. O próximo alvo da fabricante é o mercado americano.
Desde a fundação, a Klin manteve exclusividade em calçados infantis. Nas décadas de 1980 e 1990, o marketing passava por programas de televisão com Xuxa, Angélica e Eliana. Com o avanço da internet e das redes sociais, precisou adaptar a comunicação ao comportamento das mães e famílias. Atualmente, o digital representa em torno de 8% das vendas.
O galpão de 60 metros quadrados onde tudo começou segue de pé ao lado da sede atual. A empresa quase fechou antes de se tornar uma das fabricantes relevantes de calçados infantis do país.










