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Cachoeira localizada debaixo do oceano é formada por água gelada e movimenta milhões de metros cúbicos por segundo

Por Milton Filho
20/09/2026
Cachoeira localizada debaixo oceano formada

Foto: sakonna rachbumrung/Pexels

A Catarata do Estreito da Dinamarca possui o que é considerado o maior salto d’água do mundo. Ela se forma sob o gelo e a superfície tranquila do oceano que separa a Groenlândia da Islândia e trabalha sem parar.

Escondida nas profundezas, sem qualquer claridade solar, essa formação surge de um choque contínuo entre correntes de temperaturas distintas. Batizado pela ciência de Denmark Strait Overflow (DSO), esse processo dispensa tanto a precipitação quanto qualquer paisagem rochosa para se manter em atividade.

O choque de temperaturas no leito oceânico

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A água fria e densa dos Mares Nórdicos, vinda do Oceano Ártico, avança até encontrar uma corrente mais quente e leve que circula pelo Mar de Irminger, no Atlântico. Ao se tocarem, a massa gelada vence a disputa de peso e mergulha, escorrendo pelo relevo submerso como se despencasse de um precipício.

É esse mergulho brusco que cria a sensação de queda, só que em vez de rocha e ar, existe apenas água empurrando água. O relevo do Estreito da Dinamarca ajuda a intensificar o efeito: o leito marinho passa de cerca de 600 metros de profundidade para mais de 3.000 metros numa distância curta, funcionando como o penhasco que faltava para dar formato à cachoeira.

Uma queda três vezes maior que a Angel Falls

Com esse desnível, a queda vertical da água chega a aproximadamente 3.500 metros, o equivalente a 11.500 pés. O número supera em mais de três vezes a altura da Angel Falls, na Venezuela, recordista entre as cachoeiras contínuas que existem em terra firme.

A Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) calcula que por ali escoam entre 3 e 5 milhões de metros cúbicos de água a cada segundo. Para efeito de comparação, esse fluxo ultrapassa em mais de 100 vezes a maior vazão já registrada nas Cataratas do Iguaçu.

Peça-chave na engrenagem do clima

Mesmo escondida sob quilômetros de oceano, a estrutura tem papel decisivo na Circulação Termoalina Global, também chamada de Ocean Conveyor Belt. Esse sistema funciona como um transportador natural, redistribuindo calor, oxigênio e nutrientes entre diferentes regiões do planeta.

É esse fluxo contínuo de água fria e densa pela DSO que dá origem à Água Profunda do Atlântico Norte. A NADW carrega essas propriedades por correntes profundas ao redor do globo. Sem esse empurrão vindo do fundo do Estreito da Dinamarca, boa parte da engrenagem que equilibra temperaturas nos oceanos perderia força.

O que o aquecimento pode mudar nesse equilíbrio

Estudos ligados à Circulação Meridional de Reviravolta do Atlântico, a AMOC, indicam que esse equilíbrio térmico está sob pressão crescente. O degelo na Groenlândia despeja mais água doce no oceano, o que reduz a diferença de densidade entre as duas massas de água. E é justamente essa diferença que sustenta o mergulho da água no Estreito da Dinamarca.

Se a queda perder intensidade, o processo que gera a Água Profunda do Atlântico Norte também desacelera, com reflexos que atingem toda a circulação dos oceanos e a estabilidade do clima no planeta. Cientistas continuam estudando ativamente como a catarata se comporta hoje e como ela pode evoluir nos próximos anos.

Monitorar essa cachoeira submersa virou, por isso, uma forma indireta de acompanhar a saúde térmica dos oceanos. O que se passa a 3.500 metros de profundidade, longe de qualquer vista, ainda assim chega às praias, às correntes marítimas e ao clima que se sente em terra firme.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Milton Filho

Milton Filho

Jornalista, sergipano e coautor do livro 'Memórias do Esporte Clube Vitória: a história rubro-negra contada por seus personagens'

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