Mais de oito mil guerreiros esculpidos em terracota ficaram enterrados por mais de dois mil anos para proteger o imperador Qin Shi Huang na vida após a morte. O conjunto de estátuas, batizado de Exército de Terracota, foi enterrado com o governante da China entre 210. e 209 a.C., no que hoje é o Distrito de Lintong, em Xi’an, na província de Shaanxi.
Agricultores locais encontraram por acaso os primeiros vestígios em 1974, ao escavar um poço de água perto do monte Lishan. Desde então, o sítio se tornou um dos mais estudados do país asiático e recebeu, em 1987, o título de Patrimônio Mundial da UNESCO.
Um exército construído em terracota
A altura de cada estátua varia conforme a função representada: generais aparecem mais altos que soldados comuns, reforçando a hierarquia militar da necrópole. Guerreiros, cavalos e carruagens compõem o conjunto, espalhado por três poços próximos ao Mausoléu de Qin Shihuang.
Os números impressionam quem se debruça sobre o sítio: estima-se a existência de mais de oito mil soldados, 130 carruagens, 520 cavalos e 150 soldados de cavalaria, boa parte ainda soterrada. Funcionários, acrobatas e músicos em terracota também apareceram em poços vizinhos, ampliando o retrato da corte imperial reconstruída sob a terra.
A construção do mausoléu imperial
O historiador Sima Qian, autor da obra Registros do Historiador, relatou que a construção do mausoléu começou em 246 a.C. e que cerca de 700.000 trabalhadores e artesãos levaram 38 anos para completá-lo.
Segundo esse registro, o imperador foi sepultado em 210 a.C., cercado por tesouros e por uma réplica do próprio mundo, com pedras preciosas simbolizando astros e lagos de mercúrio reproduzindo os mares.
Pesquisas recentes identificaram altos índices de mercúrio no solo da região, um indício que reforça o que Sima Qian já havia registrado séculos antes. Perto dali, há uma pirâmide de terra com 47 metros de altura e 2,18 quilômetros quadrados de área. Ainda pouco explorada por temor de que a erosão causada pela chuva comprometa as estruturas internas.
A ideia de cobrir a área com um telhado especial foi cogitada, mas não havia sido viabilizada até 2007. O complexo funerário foi projetado como um palácio, dividido em salas e ambientes cercados por muralhas com diversos portões, reproduzindo a estrutura de uma corte imperial completa.
O que a ciência descobriu sobre as peças
Três décadas após a descoberta, as escavações do Exército de Terracota continuam em ritmo lento, imposto pela fragilidade natural do material. Terracota é terra uma assada em fornos com temperatura relativamente baixa, o que torna cada peça vulnerável a rachaduras e desgaste com o tempo.
Depois de queimada, cada figura recebia uma camada de laca e era pintada para aumentar o realismo das roupas e dos equipamentos. Pesquisas analisaram os materiais e as técnicas usadas pelos artesãos da dinastia Qin, incluindo marcas feitas de diferentes maneiras nas figuras, com padrões de informação como nomes de lugares, de artesãos e de oficinas.
Algumas peças ainda guardam vestígios das cores originais, embora a maior parte tenha perdido a pintura ao longo dos séculos sob a terra — a exposição ao ar causa rapidamente o descascamento ou a descoloração das tintas remanescentes.
Armas, carruagens e as trincheiras do exército
Boa parte dos soldados carrega armas reais de bronze, e acredita-se que essas armas tenham sido feitas antes de 228 a.C. e possam ter sido usadas na guerra, e carruagens construídas com grande precisão técnica completam o conjunto, um sinal do nível de sofisticação alcançado pelos artesãos da dinastia Qin.
A maior trincheira concentra a maior parte dos soldados encontrados, enquanto a segunda reúne outro grupo numeroso de figuras. A terceira, a menor, guarda a unidade de comando com 68 figuras, incluindo oficiais de alto nível, oficiais intermediários e um carro de guerra puxado por quatro cavalos.
Escavações no sítio revelaram que estruturas de madeira abrigavam o exército de terracota. E foram destruídas por um incêndio menos de cinco anos após a morte do imperador, durante uma revolta liderada pelo general Xiang Yu. Apesar do fogo, muitos guerreiros sobreviveram em diferentes estágios de preservação, cercados pelos restos das estruturas queimadas.










