O direito ao próprio silêncio
Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues
Publicado: 06/11/2026 às 08:58
Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife (Foto: Tarciso Augusto/ Acervo DP Foto)
Por Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues*
Quem caminha pelo Recife em hora de pico conhece o peso do barulho. É o motor do ônibus na Conde da Boa Vista, a buzina impaciente na Agamenon, o vendedor gritando o preço do chip, a notificação do celular vibrando no bolso.
O mundo lá fora ruge, cobra, apressa. Mas o verdadeiro caos, aquele que nos adoece, não é o que se ouve nas calçadas. É o que insistimos em carregar para dentro da cabeça.
Viver hoje virou um exercício de bombardeio contínuo. Fomos convencidos de que precisamos estar conectados a tudo, o tempo todo. Opina-se sobre a crise do outro lado do oceano enquanto a xícara de café esfria na mesa, esquecida.
Discute-se com desconhecidos em telas de vidro enquanto o pôr do sol doura o Rio Capibaribe sem que ninguém note. Estamos fisicamente em um lugar, mas nossa mente foi sequestrada por um turbilhão de perturbações que nem sequer nos pertencem.
Manter a mente saudável nesse cenário não é uma meta de manual de autoajuda. É um ato de rebeldia.
Proteger a sanidade exige a coragem de ser deliberadamente desinformado sobre o que não importa. Exige o desapego de não querer carregar o mundo nas costas. Afinal, a maior parte do barulho que nos cerca é apenas ruído vazio — o algoritmo tentando pescar nossa raiva, a urgência inventada pelo trabalho alheio, a ansiedade social disfarçada de engajamento.
Salvar-se do caos começa nas pequenas recusas. É o direito de dizer: “disso eu não sei, disso eu não participo”.
É fechar as janelas da alma para a tempestade de fora e cuidar do clima que faz do lado de dentro.
Não se trata de alienação, mas de sobrevivência. Precisamos resgatar as nossas âncoras.
Pode ser o silêncio de cinco minutos antes de abrir os e-mails, o olhar demorado para a copa de uma amendoeira, ou o ato sagrado de almoçar sem nenhuma tela por perto. O cérebro humano não foi projetado para processar as dores e os dados do planeta inteiro de uma só vez.
Se as perturbações nos rodeiam o tempo inteiro, a saída não é fugir para uma praia deserta em Porto de Galinhas — embora a ideia pareça tentadora.
A saída é construir um refúgio interno. Descobrir que, mesmo no meio do trânsito travado ou da rotina sufocante, existe um espaço de silêncio que é só seu. E que ninguém pode entrar ali sem a sua permissão. No fim das contas, ter uma mente sã não é conseguir calar o mundo; é não deixar que o barulho do mundo cale você.
Afinal de contas, a paz não é um lugar onde o barulho não existe; é a capacidade de manter o coração calmo mesmo quando a tempestade aperta o passo lá fora.
Olho ao redor e percebo que essa busca por quietude é o grande dilema coletivo da nossa época. Caminhamos pelas calçadas desviando uns dos outros, com os olhos fixos no chão ou nas telas, como se carregássemos um segredo pesado demais para ser compartilhado. Mas o segredo é simples, quase banal: estamos todos exaustos de urgências que amanhã não farão a menor diferença. Esquecemos que a vida acontece no intervalo entre uma obrigação e outra, na fresta de tempo que insistimos em preencher com mais ruído.
Talvez a grande mudança comece quando aceitarmos nossa própria pequenez diante do mundo. Não fomos feitos para consertar cada engrenagem quebrada da modernidade, nem para carregar o peso das dores que não podemos abraçar. O que nos cabe é o metro quadrado que pisamos, o afeto que conseguimos estender a quem está ao lado, e a integridade da nossa própria presença.
Quando o leitor fechar este jornal — ou arrastar o dedo para longe desta tela —, o mundo continuará exatamente igual. O trânsito na Agamenon ainda estará lento, as notificações continuarão brotando no visor e as cobranças do cotidiano baterão à porta com a mesma insistência de sempre. Nada lá fora vai mudar magicamente só porque desejamos.
A mudança real, a única que verdadeiramente importa para a nossa sobrevivência emocional, é o olhar que devolvemos a esse cenário. É a decisão mansa, mas inabalável, de respirar fundo antes de responder ao próximo estímulo. É o luxo de se permitir um instante de distração genuína, olhando o balanço das águas que cortam as nossas pontes ou ouvindo o som do vento que limpa o calor da tarde.
O mundo vai continuar gritando. Deixe que grite. Recolha-se, por alguns minutos que sejam, na certeza de que a sua mente é o seu único território sagrado. Proteja as suas fronteiras. Respire. E lembre-se de que, para não se perder na multidão, às vezes o gesto mais corajoso é simplesmente silenciar.
*Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues é advogado e professor universitário.