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E não me venham com Baudelaire

José Almino

Publicado: 06/11/2026 às 08:51

Boêmios no Bar Savoy, na época localizado na Avenida Guararapes, bairro de Santo Antônio. /Foto: Reprodução

Boêmios no Bar Savoy, na época localizado na Avenida Guararapes, bairro de Santo Antônio. (Foto: Reprodução)

Por José Almino*


Em Carlos Pena gosto tanto do personagem como do poeta. Quando me dei por gente já havia morrido, porém não há muito: um acidente de automóvel, no dia 1 de julho de 1960, aos 31 anos, quando saía do Restaurante Leite depois do almoço, sinal de uma vida boêmia confortável que me fustigou a imaginação de pretenso escritor por muito tempo.


Passada a "hora do expediente", o centro do Recife esvaziava-se rapidamente. Na avenida Guararapes havia alguns bares. O mais conhecido era o bar Savoy que servia sobretudo chope e café expresso. Os bares frequentados por boêmios, como é sabido tem má comida: não se empanturra o bebedor de empadas porque assim ele diminui o álcool consumido ou fica com sono. Era um universo totalmente masculino. Como eu viria a reencontrar conhecer na Argélia algum tempo depois.

Um bom poeta apropria-se da paisagem física, dos rostos dos homens, da brisa fresca, dos vultos noturnos e os combina de tal forma que o resultado apesar de singular se torna surpreendente aos olhos e aos espíritos os mais diversos. Pena capturou, além do ruído da animação alcoólica, uma melancolia que impregnava aquela multidão masculina em versos simples e porque não acrescentar, verdadeiros:


Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.


Carlos Pena tem uma virtude rara: é poeta de leitores de um só poeta. No Brasil conheço apenas mais um: Augusto dos Anjos. Para meu tio Miguel (irmão de minha avó paterna) Augusto dos Anjos bastava. "Chega de tanta grandeza", diria ele. E acrescento eu: Quem mais escreveria um verso sem verbo algum que me arrepia até hoje: Recife. Ponte Buarque de Macedo? Recife, ponto. Ponte Buarque de Macedo, ponto.


Arrematado por:


Eu, indo em direção à casa do Agra,
[quando eu li a funerária não mais existia]
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo.
E não me venham com Baudelaire.
Em algum lugar das noites recifenses, haverá sempre um bacharel de direito e um gerente de banco bebendo cerveja que recitarão em coro:


Humildemente envolvo-me na sombra
que veste, à noite, os cegos monumentos
isolados nas praças esquecidas
e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce
a noite côncava e profunda, enquanto
clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo
com esse escuro e amargo desespero
com que haverei de amar depois de morto.

*José Almino é sociólogo, escritor e ex-presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa

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