A redação nota mil e o risco de ensinar a escrever sem ensinar a pensar
Publicado: 05/11/2026 às 07:16
Team of university colleagues are doing research for a class project, focusing on business administration and accounting. Students collecting important data from library database. Close up. (Foto: Dragos Condrea)
Por Marcia Lira*
“Professora, qual repertório posso usar nesse tema?” A pergunta, frequente nas aulas de Redação, às vezes surge antes mesmo de o estudante compreender o problema proposto. Às vésperas do Enem, essas inquietações expõem um risco da preparação para a prova: transformar a escrita em um conjunto de fórmulas e deixar o pensamento em segundo plano.
Ensinar estratégias de escrita é indispensável. Formular uma tese, organizar parágrafos e articular ideias são habilidades que se aprendem. Em um país desigual, modelos podem facilitar o acesso a um gênero complexo. O problema começa quando o modelo deixa de ser apoio e passa a funcionar como substituto do raciocínio.
Há uma diferença decisiva entre conhecer a estrutura de uma redação e saber argumentar. Um estudante pode empregar conectivos adequados, distribuir bem os parágrafos e apresentar uma proposta de intervenção completa, mas ainda ter dificuldade para explicar as causas e as consequências de um problema. A Competência III do Enem avalia a seleção, a relação, a organização e a interpretação de informações e argumentos em defesa de um ponto de vista. Não basta, portanto, preencher espaços de um roteiro.
Na prática, porém, explicações como “negligência estatal”, “desigualdade social” e “falta de conscientização” acabam usadas como respostas automáticas para questões muito diferentes. Esses fatores podem ser pertinentes, mas nomeá-los não é analisá-los. Dizer que o poder público falha, por exemplo, é diferente de demonstrar quais falhas ocorrem, quem é afetado e como elas perpetuam a situação discutida. A qualidade argumentativa está justamente nessas relações.
Algo semelhante acontece com os repertórios socioculturais. Filósofos, obras literárias e acontecimentos históricos, que deveriam ampliar a interpretação da realidade, por vezes são reduzidos a citações decoradas. O estudante aprende a mencionar um autor, mas nem sempre consegue explicar por que aquela referência ajuda a sustentar sua tese. Repertório não é enfeite nem senha para uma nota alta: precisa participar efetivamente da construção do argumento.
Seria simplista, contudo, responsabilizar apenas os estudantes ou os professores. A pressão por resultados, as promessas de “modelos infalíveis” nas redes sociais e as lacunas na formação leitora ajudam a alimentar essa lógica. Para muitos jovens, uma estrutura inicial é o primeiro passo para conseguir escrever. Mas, sem leitura, reescrita e acompanhamento, não há autonomia.
Como professora de Redação, sei que preparar para o Enem também significa ensinar critérios, técnicas e estratégias. Mas vejo que o avanço mais importante acontece quando o estudante deixa de perguntar apenas “o que posso colocar aqui?” e começa a perguntar “por que esse argumento explica o problema?”. É nessa passagem da reprodução para a compreensão que a escrita ganha densidade.
A nota mil é uma conquista legítima, por ampliar oportunidades. Não deve, porém, ser confundida com o objetivo maior do ensino. O desafio não é escolher entre preparar para a prova e formar leitores críticos da realidade, mas impedir que uma tarefa anule a outra. Afinal, uma boa aula de Redação não deveria entregar respostas prontas para qualquer tema: deveria ensinar os jovens a formular perguntas melhores e a defender, com consistência, as próprias respostas.
*Marcia Lira é professora de redação da Oficina de Estudos