° / °
Coluna

Opinião

Opinião

ARTIGO DE OPINIÃO

Rodrigues de Paiva: "Nonada" não era de Rosa

Descoberta em obra do português Aquilino Ribeiro levanta questionamentos sobre a origem de uma das palavras mais emblemáticas de "Grande Sertão: Veredas"

Marcus Prado

Publicado: 02/11/2026 às 09:26

Rodrigues de Paiva:

Rodrigues de Paiva: "Nonada" não era de Rosa (Reprodução)

Caiu nas minhas redes sociais a notícia de que teria sido de João Guimarães Rosa o dizer que “Deus está nos detalhes”. Mais uma advertência, digo eu: não se deixe envolver com os disfarces das RS. Se João Guimarães Rosa fosse traduzir o credo modernista de Ludwig Mies van der Rohe — "Deus está nos detalhes" —, ele certamente não usaria a frieza de uma prancheta de aço e vidro. O arquiteto alemão falava da precisão geométrica, do rigor construtivo e da pureza da linha onde nada pode sobrar. Mas para o gênio de Cordisburgo, essa mesma verdade se vestiria de sertão, de veredas e de espantos cotidianos. Para Mies van der Rohe, a arquitetura era a busca pelo essencial: a beleza nascida da contenção, onde a fachada de vidro e a viga invisível exigem que cada parafuso, cada junta e cada milímetro estejam no lugar exato. No universo de Guimarães Rosa, essa precisão não é mecânica. Cada prefixo e sufixo rosiano é um pilar milimetricamente calculado, tal qual a viga de Mies.

O poeta, escritor, professor, ensaista, José Rodrigues de Paiva, um dos mais representativos autores da Geração 65, tem uma revelação de extrema importância, inédita, a dar aos estudiosos e pesquisadores do clássico “Grande Sertão, Veredas”:
“Quando eu abri pela primeira vez o romance no salão de uma livraria, já à primeira palavra uma imensa interrogação se instalava na minha cabeça: Nonada.. O que seria isso? Era voz corrente que o escritor mineiro havia criado uma linguagem só dele, que era uma espécie de linguagem de laboratório. Pura invenção. Eram os famosos neologismos. Certamente, Nonada era um deles. Mas o mistério não se esgotava aí, prosseguia pelas primeiras frases: "Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade." Vamos e venhamos, em 1956 (como nos anos seguintes e mesmo até hoje), nos círculos mais conservadores da escrita literária este novo estilo causava os seus choques. Não preciso dizer que, ao tempo dos meus passeios pelas livrarias, não comprei o romance de Rosa que só viria a adquirir e a ler muitos anos depois, creio bem que já ultrapassadas as minhas três décadas de vida. Entretanto, as minhas incursões pela literatura guardavam para mim, no futuro, uma surpresa que considerei verdadeiramente fantástica: lendo uma novela de Aquilino Ribeiro (O Malhadinhas) encontrei no texto do romancista português a inquietante palavra Nonada. Portanto, ela existia e não era um neologismo criado por Guimarães Ros. E mais: talvez o escritor mineiro tivesse lido o português. Investigando um pouco a questão, inferi o seguinte: Aquilino escreveu principalmente sobre a rústica região da Beira Interior, recuperando os seus tipos rústicos e falares primitivos. Guimarães Rosa fez o mesmo com relação ao seu mundo sertanejo. O sertão de Minas manteve-se durante muitíssimo tempo preservado na sua linguagem, nos seus costumes e tradições, e, muitas dessas coisas lá foram deixadas pelos portugueses do passado colonizador.

Portanto, Nonada, poderia ser palavra circulante em Cordisburgo, tanto quanto na Serra da Nave ou nas “Terras do Demo”, de Aquilino”.

Mais de Opinião

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas