Clima e sociedade em rede exigem governos sistêmicos
A democracia precisa ter a velocidade das redes, ideias renováveis e visão sistêmica dos territórios
Publicado: 28/10/2026 às 08:20
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição, São Paulo (SP) (Ricardo Stuckert)
Sérgio Xavier*
A mobilização popular que reelegeu Lula indica a urgência de envolver ativamente a sociedade para inovar na forma de governar. Lula reconheceu isso ao afirmar que a comunicação digital, a participação social e a mudança do clima terão ênfase no novo mandato.
A democracia precisa ter a velocidade das redes, ideias renováveis e visão sistêmica dos territórios. Polarização radical, concentração de poder digital, IA sem regulação, emergência climática e desigualdades exigem respostas integradas, rápidas e com ampla participação.
Uma enchente atinge moradias, empregos, saúde e perspectivas. Plataformas digitais aproximam pessoas, mas também amplificam conflitos. Uma economia que destrói a natureza e concentra riqueza ameaça o futuro.
Governança sistêmica e interativa significa compreender essas conexões e mobilizar diferentes setores para agir simultaneamente. Governos, academia, empresas, organizações sociais, instituições de financiamento e comunidades precisam compartilhar expectativas, conhecimentos, decisões e responsabilidades, integrando visões e saberes na construção das soluções.
Sindicatos, igrejas, movimentos e partidos ampliam resultados reais de interesse público quando saem do abstrato e conectam agendas a objetivos territoriais comuns. Preservando identidades, podem organizar conjuntamente cadeias econômicas que gerem trabalho, renda e negócios, enquanto regeneram o ambiente e fortalecem comunidades. E isso atenua polarizações e cria a cultura de cooperação de que a humanidade tanto precisa.
Cadeias econômicas territoriais são bases estratégicas para realizar transformações justas e participativas. Um modelo econômico pode gerar injustiça ou igualdade, degradação ou restauração ambiental, concentração ou distribuição de renda, saúde ou doença, paz ou violência. Portanto, unir diversos setores da sociedade para estruturar modelos de negócios regenerativos e inclusivos, equilibrando direitos de todas as partes, é uma forma promissora de articulação política e evolução socioeconômica.
O governo Lula 4 pode impulsionar essa inovação: ir além da formulação participativa de políticas públicas e envolver a sociedade também na implementação, avaliação e aprimoramento contínuo de ações compartilhadas, com foco na transformação ecológica e justa da economia. A implementação do Plano Clima, que contempla inúmeros temas, eixos, públicos e territórios, é excelente oportunidade prática.
Com base no Plano Clima, cada território pode reunir recursos e capacidades em mutirões para recuperar rios, reflorestar, garantir alimentação saudável, reciclar materiais e tornar moradias seguras, integrando saúde, educação, cultura, segurança, emprego e direitos de diferentes grupos sociais; conectando tudo isso às cadeias econômicas locais.
Produção, compras públicas, capacitação e financiamento devem convergir para uma economia que prospere gerando inclusão, regeneração ambiental e bem-estar. Em tempos de ajuste fiscal necessário, esse modelo pode impulsionar o crescimento saudável da economia na base da sociedade, atendendo prioridades, otimizando recursos, atraindo investimentos, ampliando resiliências, reduzindo custos e elevando receitas públicas.
Incentivos podem remunerar resultados comprovados na prevenção de doenças, recuperação ambiental, reciclagem e redução de desperdícios, com o governo federal articulando programas com estados, municípios e sociedade; e pactuando responsáveis, recursos, prazos e critérios públicos de avaliação.
No Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), que liga o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima – CIM (com 23 ministérios), a múltiplos setores, temas e territórios, visando acelerar a implementação do Plano Clima, estamos testando uma metodologia e um sistema digital que podem dar suporte a este novo modelo de mobilização sistêmica da sociedade.
O Brasil pode oferecer ao mundo uma referência de democracia sistêmica: regenerativa, inclusiva e interativa, com pessoas e natureza no centro de uma nova economia ecológica.
*Enviado Especial da COP30, Coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), integrante do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) e do Centro Brasil no Clima (CBC)