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Quando a juventude vira pauta eleitoral no Brasil?

Mário Oliveira

Publicado: 22/10/2026 às 09:48

Eleitor registra seu voto no teclado numérico de urna eletrônica durante as eleições/Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Eleitor registra seu voto no teclado numérico de urna eletrônica durante as eleições (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Mário Oliveira - Doutorando em História (UFRPE) e pesquisador do LAHIN - UFRPE
Humberto Miranda - Doutor em História, docente da UFRPE e pesquisador do LAHIN-UFRPE
Juliana de Andrade - Doutora em História, docente da UFRPE e pesquisadora do LAHIN-UFRPE


Nos últimos anos, a cada ciclo eleitoral, como no pleito de 4 de outubro de 2026, vemos os jovens ganharem centralidade no debate político brasileiro. Muitas vezes, sobressaem na mídia e na propaganda eleitoral, por representarem a continuidade na política, os/as denominados/as herdeiros/as políticos/as, que ingressam no cenário público ancorados/as no capital familiar para perpetuar oligarquias. Os jovens também são destaque por serem associados a imagens de figuras que representam pessoas sem experiência e imaturas, fáceis de serem manobradas por grupos políticos.

Somando-se a essas representações, destacam-se, no debate político-eleitoral, os jovens que emergem das redes sociais digitais, que mobilizam multidões por meio de pautas de extrema direita marcadamente conservadoras e bélicas, ressignificando o papel da juventude no engajamento político contemporâneo.


Embora os pesquisadores concentrem suas atenções na capacidade da extrema direita de cooptar a juventude, pouca atenção é dada ao fato de que o ecossistema institucional brasileiro continua profundamente adultocêntrico e refratário à renovação.

A insurgência juvenil, seja à esquerda ou à direita, tensiona as estruturas partidárias tradicionais, revelando um sistema que oscila entre a instrumentalização da imagem dos jovens e o temor de sua efetiva autonomia decisória.


Diante desse cenário, torna-se imperativo enfrentar a questão fundamental que atravessa o debate: por que a política partidária e institucional ainda recusa as juventudes como lideranças e sujeitos de direitos? Questionar a legitimidade do jovem no poder não reflete apenas preocupação com a capacidade de gestão pública, mas expõe o receio histórico de ver as estruturas tradicionais de poder oxigenadas e desafiadas por novas linguagens, métodos e visões de mundo.


Os jovens são, historicamente, sujeitos políticos, como tem demonstrado a pesquisa de doutorado de um dos autores sobre o movimento das ocupações secundaristas de 2016 (Ramos, 2025). Além disso, basta lembrar os jovens da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) que enfrentaram a censura nos espaços educativos durante a ditadura civil-militar, como Edson Luís, secundarista morto pela polícia aos 18 anos, em 1968; o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, cuja mobilização foi decisiva para a aprovação do ECA, em 1990; e os caras-pintadas, em 1992.


Além de todas as barreiras que grupos oprimidos (mulheres, pessoas pretas, periféricas, LGBTQIAPN+ e com deficiência) enfrentam para ter suas vozes escutadas, a juventude encara mais um desafio. Nas encruzilhadas da interseccionalidade, os jovens ainda enfrentam preconceito etário e geracional: o adultocentrismo, uma estrutura de poder que exclui, silencia e invisibiliza sujeitos apenas pela idade.


As pesquisas recentes que indicam uma tendência mais conservadora entre parcelas da Geração Z (Quast, 2026) não devem ser interpretadas como sintoma de apatia ou aversão à política. A juventude não rejeita a política; ao contrário, ressignifica a participação democrática por meio de novas plataformas e linguagens, utilizando a própria arena política para disputar a hegemonia dos valores que regerão o país.


Cabe perguntar: como a esquerda brasileira tem se colocado à disposição do diálogo com as juventudes? De que forma os sindicatos dialogam com elas? De que forma as universidades têm feito esse diálogo? Quais são os dispositivos, as táticas, as linguagens e os discursos utilizados?


Enquanto isso, vemos nomes cada vez mais jovens reproduzindo discursos de extrema direita, que exaltam períodos de ditadura e até flertam com o nazismo. Esse avanço da extrema direita sobre a juventude brasileira tem raízes diversas, e destacamos aqui duas delas. A primeira é o distanciamento histórico do processo de redemocratização: a experiência democrática não tem sido espaço de aprendizagem para a defesa dos direitos humanos e sociais. A segunda é a precarização do trabalho e o estreitamento do horizonte de expectativas, que alimentam a frustração e o ceticismo em relação à política e às instituições. É nesse vazio que a extrema direita atua, ocupando as redes, atualizando os seus dispositivos de captura e oferecendo pertencimento, enquanto a esquerda segue com dificuldades para escutar as juventudes.


Por isso, é urgente que os partidos de esquerda e as instituições de ensino (escolas e universidades) se reorganizem a partir de uma cosmovisão antiadultocêntrica, que valorize, escute e dialogue com as diversas juventudes. Precisamos fortalecer, impulsionar e amplificar vozes como a de Ana Júlia Ribeiro, que, em 2016, aos 16 anos, discursou na Assembleia Legislativa do Paraná e perguntou aos deputados estaduais: "De quem é a escola? A quem a escola pertence?". Ana Júlia tornou-se a vereadora mais jovem a exercer mandato na Câmara Municipal de Curitiba, aos 22 anos, depois a deputada estadual mais jovem da história do Paraná e, em outubro de 2026, foi eleita deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

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