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Nada como o tempo para revelar a verdade

Mas o tempo tem uma virtude que falta aos discursos políticos. Não se deixa seduzir pelas palavras. Nem se curva às conveniências do poder

Joel de Hollanda

Publicado: 20/10/2026 às 07:39

Palácio do Planalto/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Palácio do Planalto (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Por Joel de Hollanda*

Uma afirmação, quando repetida muitas vezes, pode adquirir aparência de verdade. Mas o tempo, implacável, acaba por revelar suas contradições.

Em 2001, às vésperas da campanha presidencial que levaria Lula ao poder, o Partido dos Trabalhadores lançou uma agressiva campanha publicitária contra a corrupção, criada pelo marqueteiro Duda Mendonça. Seu título era impactante: “Xô Corrupção”.

Nas telas, ratos devoravam tudo o que encontravam pela frente. Até a própria Bandeira Nacional. A mensagem era igualmente contundente: “Ou a gente acaba com eles ou eles acabam com o Brasil.”

Os roedores simbolizavam políticos associados à corrupção. A crítica dirigia-se, sobretudo, ao governo federal da época, comandado pelo PSDB. O PT apresentava-se como a esperança de renovação moral da política brasileira. Prometia combater a corrupção, punir seus responsáveis e proteger as riquezas da nação.

Mas o tempo tem uma virtude que falta aos discursos políticos. Não se deixa seduzir pelas palavras. Nem se curva às conveniências do poder.

E é implacável ao revelar a distância abismal entre o falar e o fazer. Entre prometer e realizar. Entre a retórica moralizadora e o compromisso verdadeiro com aquilo que se prega.

Nos anos seguintes, o Brasil assistiria à explosão de graves escândalos de corrupção. O mensalão. O petrolão. As investigações da Lava Jato. E tantos outros episódios que deixaram marcas profundas na história política do país.

Mais recentemente, vieram à tona o escabroso escândalo das fraudes e dos descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, além das graves denúncias de irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master.

O contraste entre o discurso moralizador daquela campanha do PT e os acontecimentos posteriores permanece como uma questão incontornável.

Afinal, expõe a distância entre a promessa e a prática. Entre o discurso e a realidade. Entre aquilo que se condena quando se está na oposição e aquilo que se pratica ou se tolera quando se exerce o poder.

Agora, diante de mais uma disputa eleitoral, o Brasil volta a se confrontar com seu passado.

O governo apresenta suas realizações. A oposição aponta seus erros e desvios éticos. E os brasileiros são novamente chamados a decidir os rumos da nação.

Mas nenhuma democracia amadurece sem memória. Nenhum país constrói um futuro digno escondendo os descalabros político-administrativos do passado.

Principalmente quando esse passado abriga alguns dos maiores escândalos de corrupção da nossa história.

E não nos iludamos.

O roubo do dinheiro público não se mede apenas pelos milhões ou bilhões desviados. Mede-se, sobretudo, pelo sofrimento que deixa atrás de si.

Pela escola que deixou de ser construída. Pelo hospital que ficou apenas no papel. Pelo sonho adiado de uma família conquistar seu próprio teto.

Pela creche que nunca chegou. Pela comida que faltou à mesa dos mais pobres. Pelo sofrimento diário de milhões de trabalhadores, apinhados e sufocados em transportes públicos precários.

Cada recurso desviado representa uma oportunidade perdida. Uma esperança frustrada. Um direito negado.

Porque, quando a corrupção se apropria do dinheiro público, não rouba apenas os cofres do Estado.

Rouba também um pedaço do futuro de cada brasileiro.

Os governos, porém, um dia passam. O poder muda de mãos. As promessas se desfazem como bolhas de sabão.

Mas os fatos permanecem.

E o tempo, esse juiz silencioso da história, continua a confrontar as palavras com as ações.

Talvez seja essa uma das grandes lições que o Brasil precisa aprender.

Não basta anunciar o combate aos ratos. É preciso impedir que a corrupção encontre abrigo nas instituições. Seja qual for o partido. Seja quem for o governante.

Porque a honestidade, a ética e a integridade não podem ser apenas bandeiras de campanha.

Precisam constituir compromissos permanentes com o povo e com a nação.

A verdade pode ser afrontada por fantasiosas e mirabolantes narrativas. Pode ser distorcida, disfarçada e até abafada por algum tempo.

Mas jamais perderá a força de sua própria luz.

E quando essa luz finalmente atravessa as sombras, o país encontra uma nova oportunidade de reconhecer seus erros, corrigir injustiças e renovar suas esperanças.

Afinal, nenhuma noite, por mais longa e escura que seja, consegue impedir para sempre o nascimento de uma nova manhã.

E essa oportunidade é agora.

No próximo dia 25 de outubro, cada brasileiro terá nas mãos muito mais do que um voto.

Terá uma parcela de responsabilidade pelo destino da nossa pátria.

Não estaremos escolhendo apenas governantes. Estaremos decidindo que país desejamos construir. Que valores queremos preservar. E que Brasil pretendemos deixar às próximas gerações.

Depois de cinquenta anos dedicados à vida pública, muitos deles no exercício de mandatos parlamentares, aprendi que nenhuma nação se torna verdadeiramente grande quando seus governantes se afastam dos princípios que proclamam defender.

E aprendi, sobretudo, que o silêncio, diante de determinados momentos da história, pode significar uma forma de omissão.

É por isso que escrevo.

Não movido pelo ódio. Nem pelo ressentimento.

Mas pelo amor profundo que tenho ao Brasil.

Pela esperança de vê-lo livre das amarras da corrupção, das injustiças e das desigualdades que tanto sofrimento impõem ao nosso povo.

Vamos todos às urnas.

Que cada voto seja um pequeno tijolo na construção de um novo Brasil.

Um país mais justo. Mais honesto. Mais digno.

Um Brasil onde a verdade não precise esperar tanto tempo para ser reconhecida.

E onde a esperança deixe de ser apenas uma promessa para se transformar em realidade.

O Brasil que sonhamos.

O Brasil que nossos filhos e netos merecem herdar.

Amém.

Joel de Hollanda é economista*

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