Filantropia também precisa de gestão
Se queremos enfrentar problemas sociais complexos e produzir transformação em escala, precisamos incorporar à filantropia princípios que o mundo empresarial conhece bem
Publicado: 15/10/2026 às 06:57
Filantropia precisa incorporar princípios do mundo empresarial em sua dinâmica (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Durante muito tempo, falar em filantropia no Brasil significou, essencialmente, falar em generosidade. Pessoas e empresas identificavam uma causa relevante, destinavam recursos e confiavam que aquela iniciativa produziria benefícios para a sociedade. A generosidade continua sendo indispensável, mas, sozinha, não é suficiente. Se queremos enfrentar problemas sociais complexos e produzir transformação em escala, precisamos incorporar à filantropia princípios que o mundo empresarial conhece bem: objetivos claros, governança, gestão profissional, acompanhamento de resultados e responsabilidade na aplicação dos recursos.
Esse modelo já está presente em algumas das maiores instituições filantrópicas do mundo. Organizações como Gates Foundation, Ford Foundation e Rockefeller Foundation operam com estruturas profissionais de gestão, planejamento de longo prazo e avaliação sistemática de impacto. A lógica é simples: quanto mais importante a causa, maior deve ser a responsabilidade sobre os recursos destinados a ela.
Uma experiência pernambucana traduz com precisão essa evolução. O Instituto Primeira Infância Plantar Amor (PIPA) nasceu há oito anos atendendo 20 famílias. Hoje, está presente em 24 municípios de cinco estados do Nordeste e acompanha mais de 1.400 famílias. Recentemente, estabeleceu uma meta muito mais ambiciosa: alcançar 1 milhão de famílias brasileiras até 2035.
Mais interessante do que a dimensão dessa meta é entender a estrutura necessária para transformar ambição em capacidade real de escala. Seu fundador, Pedro Ivo Moura, colocou capital, experiência empresarial e visão de longo prazo a serviço da causa — e foi além: depois que o PIPA venceu a sessão Brasil do Good Start Challenge, com um prêmio de € 250 mil da Van Leer Foundation, Pedro dobrou esse valor, injetando pessoalmente mais € 250 mil no projeto.
Contudo, capital isolado não produz impacto social sustentável. O PIPA conta com uma gestão executiva profissional, liderada por Rogério Morais, e com um conselho focado em acompanhamento e governança.
O papel do conselho não é meramente institucional, mas o de questionar, monitorar métricas e garantir que propósito, recursos e execução permaneçam estritamente alinhados.
Sair de pouco mais de mil famílias para chegar a um milhão não significa simplesmente expandir a operação atual. Exige tecnologia, formação de pessoas, processos replicáveis, produção de evidências e capacidade de transferir conhecimento para organizações e governos de maior alcance territorial. Exige também disciplina na gestão financeira para compreender custos e garantir a sustentabilidade do projeto ao longo do tempo.
Isso não significa transformar uma organização filantrópica em empresa. Suas finalidades são distintas: a empresa cria valor econômico, enquanto a instituição filantrópica cria valor social. Mas ambas compartilham a obrigação de administrar com excelência o patrimônio e os recursos sob sua responsabilidade. Boa intenção é o ponto de partida; gestão profissional e governança são o que garantem impacto duradouro. Fazer o bem exige propósito. Fazer o bem em escala exige gestão.
*André Bruère - Presidente do LIDE Internacional e conselheiro do PIPA