Quando a análise vira torcida
Onde antes se esperava algum distanciamento crítico, hoje sobram aplausos para um lado e vaias programadas para o outro
Publicado: 14/10/2026 às 08:03
Torcidas de Santa Cruz, Sport e Náutico (Rafael Vieira)
Por Beto Lago*
A fronteira entre a análise política e a torcida organizada não apenas ficou tênue. Em muitos casos, simplesmente desapareceu. Onde antes se esperava algum distanciamento crítico, hoje sobram aplausos para um lado e vaias programadas para o outro.
Há uma ironia nisso tudo: o cronista esportivo, historicamente acusado de deixar o coração na ponta da caneta quando escreve sobre seu time de preferência, começa a parecer um exemplo de equilíbrio diante do moderno comentarista político. No futebol, pelo menos, existe uma testemunha implacável: o placar.
Um time pode jogar mal e vencer. Pode jogar bem e perder. O colunista pode encontrar mil argumentos para defender sua paixão, mas, no fim, a tabela está lá para confrontá-lo. O número de gols não muda porque alguém decidiu contar a partida de outra maneira. A classificação não aceita narrativa. Na política, porém, os fatos parecem cada vez mais submetidos à interpretação conveniente de cada lado.
O comentarista que deveria interpretar os acontecimentos muitas vezes assume o papel de torcedor profissional. Quando seu candidato perde, a derrota vira estratégia. Quando o adversário vence, aparece alguma conspiração para explicar o resultado. O erro do aliado é relativizado; o mesmo erro, quando cometido pelo adversário, transforma-se em prova definitiva de incompetência, corrupção ou autoritarismo. A lógica deixa de ser a busca pela compreensão dos acontecimentos e passa a ser a confirmação daquilo que o público já deseja acreditar.
É aí que está um dos maiores problemas do debate contemporâneo. O analista deixa de perguntar “o que os fatos estão dizendo?” e passa a perguntar “como posso usar os fatos para defender o meu lado?”
A diferença parece apenas semântica, mas muda completamente a função de quem analisa. Um procura explicar a realidade. O outro procura enquadrá-la. O resultado é um debate público cada vez mais pobre, dividido em torcidas que tratam a política como um campeonato permanente. Já não importa tanto o que aconteceu, mas quem “venceu” a discussão nas redes sociais. Uma decisão não é avaliada necessariamente pelo seu conteúdo ou pelas consequências que produz, mas por quem a tomou: governo ou oposição, aliado ou adversário.
Criou-se uma espécie de soma zero intelectual: se alguém do meu campo está certo, alguém do outro necessariamente precisa estar errado. A nuance passou a ser vista como fraqueza. A ponderação, como covardia. Admitir que o adversário eventualmente tenha razão tornou-se, para muitos, uma espécie de traição. E assim nasce a cegueira seletiva.
A indignação, que deveria ser princípio, transforma-se em instrumento partidário. O comportamento que escandaliza quando praticado pelo adversário torna-se aceitável quando praticado pelo aliado. O discurso que ontem era chamado de autoritário hoje pode ser apresentado como firmeza. A decisão antes denunciada como irresponsável ganha o verniz de pragmatismo.
Os princípios passam a depender da camisa de quem está em campo. Esse talvez seja um dos sintomas mais evidentes da transformação da análise em militância. Não se trata de defender que jornalistas, comentaristas ou colunistas sejam pessoas sem opiniões. Eles têm valores, convicções, visões de mundo e preferências. Fingir o contrário seria tão desonesto quanto imaginar que o jornalismo precisa ser completamente asséptico.
O problema não está em ter opinião. Está em permitir que a opinião determine os fatos. O bom jornalismo não precisa abandonar suas convicções. Precisa, sobretudo, ter coragem para contrariá-las quando a realidade exigir. O verdadeiro teste de independência não acontece quando criticamos quem pensa diferente. É muito mais fácil apontar o erro do adversário.
A prova de caráter jornalístico aparece quando somos capazes de reconhecer o erro de quem pensa como nós. É justamente aí que a análise se separa da torcida. O torcedor quer que seu time vença. O jornalista precisa explicar por que venceu e também por que perdeu. O torcedor comemora o gol. O jornalista precisa olhar para o que aconteceu antes dele. O torcedor escolhe um lado. O analista deveria, antes de tudo, escolher os fatos.
Essa distinção também vale para aquilo que se convencionou chamar de “previsão” ou “análise de cenário”. Há uma diferença entre avaliar tendências a partir dos dados disponíveis e simplesmente projetar aquilo que se deseja que aconteça.
O jornalismo de torcida faz exatamente o segundo movimento. Primeiro escolhe o resultado. Depois procura argumentos para justificá-lo. É a transformação do analista em militante com crachá. Quando isso acontece, o leitor também muda de comportamento. Deixa de procurar informação e passa a procurar confirmação. Já não quer necessariamente ser confrontado por fatos que contrariem suas convicções. Quer encontrar argumentos que reforcem aquilo em que já acredita.
A imprensa, então, deixa de funcionar como espaço de confronto de ideias e passa a alimentar arquibancadas permanentes. Cada grupo grita mais alto, interpreta os acontecimentos de acordo com sua camisa e considera suspeito qualquer comentarista que não cante o mesmo cântico.
No futebol, ainda existe o apito final. Na política, o campeonato não termina nunca.
Por isso mesmo, talvez seja necessário recuperar uma regra simples e antiga do jornalismo: a realidade não tem partido. A imprensa tem uma responsabilidade cívica que não pode ser confundida com militância. Cabe a ela informar, questionar, confrontar versões, fiscalizar o poder e preservar o compromisso com os fatos. Seu papel não é dizer ao cidadão em quem acreditar, mas oferecer elementos para que ele possa formar a própria convicção.
O jornalismo não precisa ser neutro diante dos fatos. Precisa ser fiel a eles.
Porque, quando todos passam a torcer e poucos se dispõem a analisar, a sociedade perde justamente aquilo de que mais precisa: alguém disposto a dizer que o seu próprio time está jogando mal.
E, para não esconder o jogo, deixo a minha camisa sobre a mesa: sou apaixonado por futebol e torcedor do Sport. Mas isso não me impede de reconhecer quando o meu time joga mal. Na política e no jornalismo, deveria ser assim também.
Beto Lago é jornalista, escritor e colunista esportivo do Diario de Pernambuco*