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O que o Brasil pode aprender com a educação finlandesa

A Finlândia é reconhecida por possuir um dos melhores sistemas educacionais do mundo, mas seu principal ensinamento talvez não esteja em uma fórmula. Está na coerência entre o que o país acredita sobre a infância, os professores e a escola e o que efetivamente pratica

Camila Domingues

Publicado: 10/10/2026 às 08:47

Alunos durante aula na escola/Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Alunos durante aula na escola (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Camila Domingues*

Conhecer experiências bem-sucedidas não significa copiar modelos, mas observar princípios capazes de dialogar com a nossa realidade. Foi com esse olhar que participei, recentemente, do Congresso Internacional Finlândia–Brasil: Gestão que Inspira, encontro que aconteceu em Porto de Galinhas e reuniu especialistas dos dois países para discutir gestão escolar, formação de professores, inovação, inteligência artificial e os desafios da educação no século XXI.

A Finlândia é reconhecida por possuir um dos melhores sistemas educacionais do mundo, mas seu principal ensinamento talvez não esteja em uma fórmula. Está na coerência entre o que o país acredita sobre a infância, os professores e a escola e o que efetivamente pratica. A educação é tratada como compromisso coletivo e de longo prazo, sustentado por políticas consistentes, valorização profissional e confiança nas comunidades escolares.
Um dos pontos mais relevantes é a centralidade do professor. A formação é rigorosa, o trabalho docente é valorizado e há autonomia pedagógica. Em vez de reduzir o educador a executor de conteúdos, o sistema reconhece sua capacidade de observar, planejar, avaliar e decidir conforme as necessidades dos estudantes. Para o Brasil, a lição é clara: não haverá transformação consistente sem investimento na formação, nas condições de trabalho e no reconhecimento de quem está em sala de aula.

Outro aprendizado importante é compreender que aprendizagem e bem-estar caminham juntos. A escola finlandesa procura equilibrar conhecimento, convivência, autonomia, criatividade, movimento e participação. A infância não é vista apenas como preparação para o futuro, mas como um tempo que possui valor em si mesmo. Isso exige ambientes seguros, relações de confiança e práticas que respeitem diferentes ritmos de aprendizagem.

Na Escola Encontro, no Recife, onde atuo como sócia-gestora, conhecer boas iniciativas e novas referências faz parte de uma prática permanente de aprimoramento. Somos uma escola socioconstrutivista, com 43 anos de funcionamento no Recife, e mantemos o berçário mais antigo em atividade na cidade, reconhecido como referência no cuidado de bebês. Nossa trajetória mostra que tradição e inovação não são opostas: uma escola permanece relevante quando preserva seus valores e continua disposta a aprender.
O Congresso reforçou convicções que já orientam nosso trabalho: a aprendizagem acontece nas relações, a escuta integra o processo educativo e a criança deve ser reconhecida como sujeito ativo na construção do conhecimento. Também nos desafia a ampliar repertórios, revisar práticas e pensar como a tecnologia e a inovação podem fortalecer, e não substituir, o vínculo humano.

O Brasil não precisa se tornar a Finlândia. Também precisa garantir qualidade com equidade, para que o direito de aprender não dependa da origem de cada estudante. Precisa aprender com a seriedade com que ela trata a educação: planejar para além de governos, confiar mais nos professores, reduzir desigualdades e colocar o desenvolvimento integral das crianças no centro das decisões. Boas referências internacionais cumprem seu papel quando nos ajudam a olhar para a nossa própria escola e a transformá-la, todos os dias, em um lugar mais humano, competente e inspirador.

*Pedagoga e gestora escolar

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